Fragmentos de Eternidade – fragmento cinco

Ninguém me avisou sobre os olhos. Deveriam ter alertado: é o primeiro elemento em que o foco da visão se prende, justamente aquele que nunca mais será esquecido. Depois, em toda escultura ou estátua que ainda será vista, os olhos serão procurados, e cada par será diferente do anterior. Eles expressam dor, surpresa, raiva, desespero. São olhos humanos presos dentro de uma inumanidade. Sentimentos conflitantes preenchem o seu espírito: pouco importam as deficiências do autor da estátua, os seus aleijões, as suas limitações. Tudo o que você quer saber é como ele conseguiu transformar matéria morta em vida, como ele conseguiu captar a divindade. Nenhuma foto é capaz de apreender toda a força daquele olhar, e a tristeza é grande ao saber que somente a memória conseguirá carregar, a partir de agora, a recordação daquilo que foi sentido. Os olhos ficarão no fundo da memória, mas você reza para que, no último segundo da sua vida, no último ar que invadir o seu pulmão, eles reapareçam, e a sua doce humanidade traga consigo o perdão, a absolvição e, se for possível, o silêncio.

 ele

 

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Aleijadinho, Crônicas, Escultura, Generalidades, Produção Literária

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s