Take a walk on the German side

Caminhar em uma cidade é conhecê-la de maneira mais íntima do que estabelecer uma casa. Sempre caminhei em Porto Alegre, e já estou acostumado com a falta de educação dos motoristas, o fedor onipresente de mijo e fezes humanas, os cartazes repletos de erros de Português, os loucos e bebâdos que interrompem a jornada com suas falas confusas.

Nos últimos meses, tenho caminhado em Teutônia nos finais de semana. Por questões de disciplina interna, caminho sempre no mesmo lugar, ao redor de uma pista atlética na Associação Pró-Desenvolvimento de Languiru, chamada (pelos íntimos) de Associação da Água. O percurso completo é 600 metros.

Com o passar dos tempos (e a ociosidade típica de quem está caminhando em círculos da mesma forma com que um rato se exercita), forneci apelidos para os trechos do percurso realizado. E assim eu passo pela Subida da Aclamação (na primeira volta nem é tão subida e nem tão aclamação, mas na última dá vontade de urrar de alegria quando chego ao seu topo); pela famigerada Curva do Salsichão, seguida da Reta do Churrasco (a Associação da Água faz festas e churrascos frequentemente, e os cheiros se depositam nesta área da pista); pela Ondulação do Poste (breve subida, com um poste de luz no meio); pela horripilante Curva da Galinha (a pista limita na sua extremidade com um galinheiro, e as pessoas que trafegam ali passam a poucos metros dos olhares curiosos de várias galinhas); pelo S da Pracinha (o trajeto quebra em duas curvas seguidas por causa de uma praça feita para crianças se exercitarem); pela Reta do Posto de Gasolina (onde os cidadãos de Teutônia costumam assistir as partidas de futebol e as moças que se exercitam na pista tomando uma cerveja – Lei Seca para quê mesmo?); pelo Final Sprint (uma descida longa que vai concluir a pista, quase um alívio para os músculos).

Quem caminha em uma cidade aprende a conhecer os detalhes que ela oculta. Mesmo em uma pista de atletismo, são vários.

É impossível não caminhar em Teutônia sem perceber a quantidade de idosos fazendo exercícios. Deve ser alguma coisa relacionada com a lógica protestante, ou pode ser a determinação de um médico seguida fielmente por seus pacientes. Não tenho como saber. Mas, faça sol ou faça chuva, eles estão lá, firmes na pista. E enganam-se aqueles que pensam que os jovens levam vantagem por terem menos anos a carregar nas costas! Os idosos dão um show: eles passam caminhando na pista como foguetes de sabedoria. Já tentei acompanhar o passo insano deles, mas não consegui. Eles estão em forma. Assustadoramente em forma.

Outro detalhe são as equipes. Eu chamo assim dois grupos de pessoas de meia idade que se reúnem na pista para caminhar juntos. Cada equipe tem camisa própria, uma espécie de fardamento. É normal eu estar caminhando (como todo bom anti-social, com o Ipod tocando heavy metal e a cabeça perdida no oceano do ainda não-escrito) e distinguir, na minha visão periférica, um estranho agrupamento amarelo ou azul caminhando rapidamente, seguindo meus passos. Mal tenho tempo de me afastar. Se continuasse no seu caminho, seria pisoteado. Suspeito que as equipes tenham nome, assim como suspeito que estejam treinando para alguma competição, mas não consigo visualizá-los por tempo suficiente para descobrir estas particularidades. Quando os vejo, já me ultrapassaram.

Uma característica encantadora é que todas as pessoas que me passam (sim, em Teutônia eu ando como uma tartaruga perto daquele bando de caminhantes siderados) perdem alguns segundos dirigindo cumprimentos em uma língua que eu suspeito que seja alemão ou, pelo menos, abanando a cabeça de forma respeitosa. Em Porto Alegre, eu levaria um tapa ou uma encarada raivosa; em Teutônia, as pessoas são educadas e respeitosas. Ninguém tenta interromper o curso da caminhada e, vendo que estou ouvindo música, ninguém tenta conversar comigo (hábito detestável dos porto-alegrenses, pois basta ao cara colocar um par de fones de ouvido que ficam instantaneamente com vontade de contar a sua vida inteira para a pessoa). Eles me cumprimentam, só isso. Registram a minha presença. Mostram que sou parte da coletividade.

Chama a atenção que a pista é dividida pela metade e, em cada uma delas, um desenho no chão indica onde as pessoas devem caminhar e onde as bicicletas podem trafegar. Extremante organizado para evitar acidentes, como se pode ver. Quem conhece os alemães sabe que eles são um povo ordeiro e seguidor de regras. No entanto, o único traço de subversão e anarquia que localizei naquela comunidade é o fato de que as pessoas gostam de caminhar na parte da pista dedicada às bicicletas – e estas gostam de andar serpenteando por entre as pessoas. Esta desobediência é incrível, ainda mais se considerarmos que, nestes seis meses que caminho lá quase todo o fim de semana, em nenhum dia vi alguém fazendo o percurso contrário daquele indicado na pista. Quem caminha em pistas de atletismo em Porto Alegre sabe que cada pessoa inventa o percurso que quer fazer e se irá iniciar à direita ou à esquerda, transformando as pistas em uma grande confusão de pessoas desencontradas. No entanto, em Teutônia, todos iniciam no mesmo ponto (a extremidade zero da pista) e terminam no mesmo ponto (a extremidade 600). Ninguém teve a anárquica ideia de seguir o percurso inverso, do 600 ao zero, que representaria a mesma distância.  Não tenho nem ideia do que pode acontecer com a ordem universal acaso alguém resolva inverter o sentido da caminhada na pista de atletismo de Teutônia, mas é bom não arriscar.

No verão, a pista de atletismo enche de pessoas se exercitando. No inverno, somente os idosos continuam frequentando a pista. Em todas as estações, o pessoal bebendo cerveja no posto continua incólume. À medida em que os dias passam, a pessoa começa a reconhecer os companheiros: lá vem a senhora que caminha 10 voltas mexendo os braços como se fosse um helicóptero, lá vem o senhor que me cumprimenta toda volta como se fosse a primeira vez (ou ele esquece ou ele tem fissura em cumprimentar gente). Meu atual projeto de vida é conseguir emparelhar – nem falo em ULTRAPASSAR – um senhor de aproximadamente 75 anos que coloca duas voltas em cima de mim ao natural, o que é péssimo para a auto estima de quem tem metade da sua idade. Sorte que eu tenho o tempo ao meu lado, por que ele não vai conseguir manter este ritmo para sempre (este não foi um comentário maldoso, e sim uma asserção repleta de despeito).

Caminhando em Teutônia, descobri mais sobre o povo do que morando lá. São pessoas fascinantes: acolhedoras e frias, educadas e indiferentes. Tenho uma explicação para a dualidade, uma teoria sobre os motivos que levam os alemães a serem deste jeito. Não é hora de expor as minhas ideias, mas posso garantir que elas envolvem os malditos sinos que tocam toda hora, as misturas de salgado e doce e a obsessão por horários. Se acreditarmos na teoria quântica (ai ai ai, lembrei das aulas do pós graduação em revisão textual e das minhas ressalvas eternas quanto a esta teoria), todos os fatos do Universo estão interconectados. Eu acredito que, com o tempo e com a necessária reflexão, irei conseguir entender os alemães que me cercam. Enquanto isto, continuarei caminhando na pista, continuarei treinando em silêncio para vencer o meu Moriarty de 75 anos que insiste em mostrar o vigor da sua terceira idade.

Ao redor do ginásio, fica a pista de atletismo. É possível ver, embaixo, parte da Final Sprint a que me referi. Eu deveria ter tirado fotos da pista para ilustrar os pontos mencionados nesta postagem, mas acho meio brega e esquisito ficar tirando fotos. I think I’m turning german(ese).

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2 Comentários

Arquivado em Caminhada, Generalidades, Lugares, Teutônia

2 Respostas para “Take a walk on the German side

  1. raquel

    A mistura de doce com salgado só é entendida pelos iniciados, e tem um papel importante e ainda não completamente elucidado na Deutschkultur. Ainda merece ser alvo de um estudo antropológico.

    • Misturar doce com salgado é uma mania alemã muito estranha. Não consigo entender qual a proporção de doce deve ser observada em relação ao salgado, e vice versa. E qual é o sentido de se comer um doce com um gosto salgado misturado? Isto vai contra toda a ordem natural das coisas. Engraçado que os aemães, tão ordeiros, façam tamanha bagunça com o próprio paladar.

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