Filme: “Drive”

Nos últimos tempos, por causa de compromissos profissionais e pessoais, tenho cada vez menos tempo para assistir filmes. Não é falta de vontade, é falta de espaço disponível dentro das 24 horas de um dia. Admito, também, que raros são os filmes que atraem a minha atenção, em especial por achar as suas tramas superficiais e repetitivas.

Por este motivo, quando escolho um filme para ver, antes leio as críticas e resenhas que fizeram sobre ele. Com este acréscimo de informações, detecto se o filme vale o espaço de duas horas dentro de um dia. Diante de tal procedimento, quando li o aparato crítico disponível sobre o filme “Drive”, percebi que ele era unânime em louvar o filme, considerando-o uma obra artística relevante, louvando as atuações dos personagens, a trama revolucionária, a música, os figurinos, a direção de arte, tudo. Parecia ser um bom filme, e decidi assisti-lo.

Sinceramente falando, achei um lixo. Pensando melhor, lixo é uma palavra muito forte para caracterizar o filme: eu diria que ele é insosso, bobinho, uma apologia inverossímil à violência gratuita e completamente dispensável. Um genérico do Tarantino, mas com um roteiro frágil. É um daqueles filmes que, após um mês, eu sequer lembrarei ainda da trama, só lembrarei de não ter gostado e que não valeu a pena.

A história é simples e tão maniqueísta que pode ser sintetizada em rápidas palavras: dublê ganha a vida fazendo “bicos” como motorista de assaltos. Conhece uma moça e se apaixona pela estrutura familiar dela, até por não ter família e nem passado. Para ajudar o marido da moça (e evitar que ela seja implicada nos problemas dele, que é um bandido recém-saído da cadeia e com dívidas a serem pagas), acaba se envolvendo em um assalto fracassado, o qual leva a uma trama com mafiosos, um legítimo “matar ou morrer”.

Talvez eu estivesse esperando mais do filme depois de ter lido tantos elogios, mas ele me pareceu comum. No entanto, já vi dezenas de filmes com esta mesma temática e muitos deles foram tão bem realizados em termos de história e construção interna dos personagens que se tornaram inesquecíveis. Um filme deve se concentrar nos personagens e na forma com que estes se articulam diante das situações. Em “Drive”, eles são chatos e sem nenhum conteúdo interior. Ryan Gosling passa boa parte do filme calado; quando fala, chega a tremer o beicinho para parecer o mais cool possível, com cara de quem está com sono ou de quem está em um tédio mortal. Até as suas explosões de fúria – quando vão para o paroxismo da violência, triturando cabeças e eviscerando inimigos – parecem coreografadas e pouco convincentes. Muito se falou da jaqueta usada por ele no filme, que ostenta a imagem de um escorpião; tudo bem, existem símbolos escondidos nisto, mas um filme não se sustenta em cima de uma jaqueta, senão os desfiles da Victoria Secrets seriam indicados ao Oscar todos os anos.

Carey Mulligan é uma moça chata e que também aparenta estar possuída da doença do tédio. O seu único rompante de violência – um tapa, logo que sabe da morte do seu marido – é para ser tão surpreendente quanto os arroubos de raiva do Ryan Gosling, mas torna-se previsível e desmentido pelo beijo posterior trocado no elevador. Até se pode ver outras interpretações no fato de que a mulher que esbofeteia com violência é a mesma quase desfalecente diante do beijo do recém esbofeteado, mas pequenas intervenções como esta não seriam capazes de sustentar todo o filme e dar-lhe mais constância. O vilão interpretado pelo Albert Brooks surpreende somente à medida em que o espectador o compara com outros personagens já interpretados pelo mesmo ator em outros filmes – ou seja, o vilâo só ganha consistência e interesse mediante uma abordagem quase alienígena, pois o espectador teria que cotejar este filme com outros filmes ainda presentes na sua memória.

Se eu pudesse situar o problema do filme em um único aspecto, diria que ele falhou em tentar mostrar a sua aparência de vida. Estava tão preocupado em parecer descolado (e eu diria com uma pretensão de virar cult antes mesmo de virar filme) que se esqueceu da história. Ela ficou parecendo falsa, inverossímil e, em alguns momentos, um tanto quanto bobinha. Por mais nobres que fossem as intenções do Ryan Gosling, nenhum homem ajudaria o marido da mulher que ama, pelo contrário, desejaria o seu mal. Da mesma forma, é um gigantesco e abissal clichê a história do solitário que começa a participar da vida minúscula de uma família e quer transformar isto na sua realidade. Não estou dizendo que este tipo de história sempre é um clichê, mas a forma pueril e quase cândida com que foi contada me deixou com um misto de irritação e sono. E a sequência final, onde se pretende a criação de um mistério (terá ele sobrevivido?), é irrelevante e acrescenta um falso mistério à trama, provavelmente para gerar algum celeuma. Por fim, o grande clichê de “homem solitário que mata todos os inimigos para proteger a família amada, mesmo que perca a vida no processo” é o sustentáculo completo do filme, e acaba se tornando uma premissa muito fraca para sustentar a trama, em especial pela pouca criatividade do roteiro.

Bem, para não dizer que o filme é um desastre tão completo (não é, somente as minhas expectativas que estavam infladas demais e a história não deu conta), os ângulos da câmera dentro do carro eram muito interessantes e realistas, o espectador parecia estar realmente no banco do caroneiro. E os silêncios do Ryan Gosling, apesar de parecerem forçados pelo uso excessivo, dando-lhe um aspecto um pouco boboca às vezes, eram interessantes. Um personagem de poucas palavras sempre é bom, sempre atrai mistério para a trama.

Eu não gostei do filme. Esperava mais criatividade e menos preguiça no roteiro. Mas, como todo mundo, gostei da jaqueta – o problema foi todo o resto que cercou ela, desde os personagens até a iluminação das cenas.

Anúncios

4 Comentários

Arquivado em Cinema, Drive

4 Respostas para “Filme: “Drive”

  1. leonardo

    que gosta de gosto este seu heimm.

  2. Kelli Pedroso

    Eu já sei o que vou te dar no próximo aniversário: uma jaqueta de couro, com um escorpião nas costas.
    Eu também não gostei do filme. Quase sempre leio as críticas, mas elas não interferem na minha escolha de assistir ou não um filme. Já vi ótimos filmes, que os críticos tinham odiado. Sério.
    Agora, procura alugar “Sobre Verdades e Mentiras” (faz tempo que menciono este filme). É outro Ryan Gosling. Vale a pena.

  3. DRAX

    O filme foi top demais se você não gostou é porque você não entende a história do protagonista Drive é um livro e terá uma continuação chamada Driven aposto que você nem sabia disso né?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s