Fragmentos de Eternidade – fragmento quatro

Antes de tudo, o silêncio. No entanto, mesmo nesta hora morta onde nada existe e o mundo parece trancar a respiração, a expectativa preenche o ar, eletricidade palpável, deixando a impressão de que, a qualquer momento, a calma irá se estilhaçar em dezenas de pedaços. Então, quando a tensão chega ao insuportável, a batida seca ecooa no chão, nervosa, e dezenas de batidas sincopadas a seguem em um crescente voluptuoso, como se o chão estivesse se transformando em um tambor, como se as entranhas da terra estivessem se contorcendo. As sombras irrompem do vazio com suas pernas finas encerradas por patas violentas, os músculos dançando o balé de sangue e carne, a respiração aos jatos gerando a neblina de onde se origina o mundo. Cada passo impulsiona o corpo para cima e para a frente e, por segundos, a fortaleza de carne se mantém estática no ar, neste improvável êxtase de imaginar-se beija-flor, enquanto as pernas encolhem e esticam, e logo a gravidade impulsiona o corpo contra o chão, para um novo passo, um novo voo. É questão de tempo até o coração ajustar-se, a contragosto, às batidas que agora escravizam a terra. Impossível não admirar os animais que passam, impossível não sentir vontade de juntar os próprios passos ao tropel, impossível não estremecer e sentir que uma parte de si acompanhou a cavalgada insana.

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Arquivado em Impressões, Produção Literária

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