O som da ausência

Há algum tempo, o clipe de uma música tem assombrado a minha memória. Não consigo esquecê-lo e, talvez, a melhor forma de exorcizar o fantasma seja colocá-lo aqui no blog e imaginar que tal pentagrama virtual o mantenha preso.

A música é End of the Line, do Travelling Willburys. Para quem não conhece, o Travelling Willburys é uma superbanda formada no final dos anos 80, que ostentava nas suas fileiras nada menos do que Bob Dylan, George Harrison, Tom Petty, Jeff Lynne e Roy Orbison. Fez poucas músicas, durou pouco tempo e, como toda constelação de astros que se reúne em um momento fugaz, deixou de existir e passou para a história. Mas vamos à música, que é o importante nesta postagem:

O que eu acho fantástico neste clipe é a capacidade que ele possui de captar a ausência de uma pessoa. A imagem da cadeira de balanço, o violão e a foto esmaecida sobre um móvel são o necessário para evocar o fantasma persistente do músico (e a própria música também não é uma espécie de fantasma? Afinal, muitos artistas já morreram e as suas músicas continuam sendo tocadas como se eles estivessem vivos, espalhando sombras de ausentes pelo mundo). A homenagem é extremamente sensível. É de arrepiar ver a cadeira de balanço mexendo ao som da música, enquanto o espectro de um homem morto acompanha os seus colegas de grupo na canção.

Nesta época em que a música se torna o espelho narcisista de cantores não tão recordáveis, é comovente ver um clipe que homenageia  a ausência. O interessante é que faz parte da natureza do ser humano estar ausente: quem nunca esteve distante, quem nunca teve vontade de estar em outro lugar? Eu diria que os momentos em que estamos presentes são a grande minoria. Perdemos formaturas, casamentos, batizados, velórios, festas de família, encontros com amigos. É impossível estar em vários lugares ao mesmo tempo, e escolher a presença em um local implica em se tornar ausente de vários outros. E eu penso naqueles que morreram, cuja ausência agora é eterna, e penso que o dolorido no morrer é justamente saber que nunca mais estaremos presentes. Por isto os espíritas, que acreditam que os espíritos ainda nos acompanham, ainda estão conosco. A sensação de solidão é a maior angústia que qualquer pessoa pode experimentar.

Outro artista que soube expressar como ninguém a solidão e a própria ausência foi Ivan Kramskoi, no quadro “Cristo no Deserto” (1872). São incríveis os artistas capazes de revelar, através de imagem ou de música, um sentimento tão íntimo e subjetivo. No quadro, vemos um Cristo fatigado, reflexivo, humano. Mas, mais do que tudo, apreendemos a sua solidão, a angústia, a ausência de pessoas com que possa dividir e mitigar o sofrimento. Desconsiderando o aspecto religioso, quem disse que até o Filho de Deus não poderia ter dúvidas e sentir solidão? Talvez isto seja o que nos aproxima da própria concepção de divindade, mais até do que uma eventual ressurreição.

“Cristo no Deserto” (1872), de Ivan Kramskoi

De qualquer jeito, o clipe dos Travelling Willburys e o quadro de Ivan Kramskoi evocam algo que aparenta estar perdido nos tempos atuais: nós temos o direito de estarmos ausentes. Nós temos o direito de sermos introspectivos. Não são os momentos de barulheira que nos aproximam do nosso âmago; já disse Shakespeare que a vida é feita de som e fúria, mas não o ser humano. Nós somos feitos de solidão e de ausências e, para ouvir a própria voz, talvez seja essencial sentar em uma pedra no meio do deserto ou observar a oscilação da cadeira de balanço vazia.

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2 Comentários

Arquivado em Ivan Kramskoi, Música, Pintura, Travelling Willburys

2 Respostas para “O som da ausência

  1. Belo texto, Gustavo. Sempre senti uma grande satisfação (e mesmo um orgulho secreto) por jamais ter ficado entediado comigo mesmo. Na verdade, me deleito com a solidão. Teu texto mexeu com isso, e esse é o melhor elogio que posso fazer. Abraço.

    • Kleber, ficar sozinho é uma arte, mas também um aprendizado. O silêncio tem sons que somente espíritos sensíveis podem captar. Gostei muito do elogio. 🙂

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