Fragmentos de Eternidade – fragmento três

É assim que as coisas são: a divindade pode morar nos menores cantos, nos mais ocultos desvãos, nas sutis curvas do caminho. Não conseguimos ver o sublime por inteiro, mas nossos dedos resvalam no imponderável, tocam a neblina e quase conseguem sentir a sua textura. Quase. Somente isto explica que, após longos 05min42seg de música, Blackmore segura a guitarra e pensa, vou ir além, vou voar mais longe. Assume o comando do solo e inicia a subida na direção do Paraíso, alternando hard rock com Bach, em um crescente enlouquecido. Tempo é tudo, mas tudo não é tempo. Neste caso, o timing é perfeito: concentrados em chegar ao fim da música, os músicos deixam o guitarrista experimentar a liberdade, deixam ele escalar o Olimpo. Aos 06min16seg, Blackmore é todo emoção: solta das amarras da realidade, a guitarra vai a lugares onde ainda não esteve, brinca com a eternidade, flerta com o desconhecido que está do outro lado do Paraíso. Enfim, em 06min26seg, os acordes conseguem tocar, com a fímbria dos dedos, a distraída divindade, e o ouvinte sente o coração falhar um milionésimo de segundo nas suas batidas incessantes, sente que alguma coisa incomensurável aconteceu, sente que MUDOU. E, então, ainda chocada com a mesma ousadia que fez Ícaro morrer com o beijo do sol, a guitarra volta a se recolher, diminui a sua frequência, tenta recuperar a integridade, tenta se manter coesa, não enlouquecer. Enquanto isto, o silêncio e o vazio espreitam o fim da música, pois nada mais precisa ser dito.

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Arquivado em Crônicas, Deep Purple, Impressões, Música, Produção Literária

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