Livro: “Akropolis – A Grande Epopeia de Atenas”, de Valerio Massimo Manfredi

Um dos mais interessantes períodos históricos que a Humanidade vivenciou – e que, de certa forma, continua projetando as suas luzes e sombras até os dias atuais – é a época da Grécia Antiga. Começando pelos filósofos que moldaram a escala de valores ocidentais, influenciando as ciências e a forma de pensamento, passando por artistas cujas obras ainda encantam, e culminando no nascimento da democracia, forma de governo que, apesar das suas imperfeições, ainda é a mais vigente no mundo atual, o período da Grécia Antiga foi um dos momentos definidores da civilização ocidental e, entre as polis que constituíam o fragmentado Estado grego, não resta dúvida de que Atenas foi a estrela mais brilhante do período.

No livro “Akropolis – A Grande Epopeia de Atenas”, o escritor italiano Valerio Massimo Manfredi resolve contar a história de Atenas, desde a sua criação mitológica até a derrota para Esparta na Guerra do Peloponeso. Não tenho o costume de adquirir livros por causa do autor, são poucos que têm este status comigo. Entretanto, tinha lido alguns livros de Massimo Manfredi e a combinação das suas habilidades tinha me agradado. Além de ser  um ficcionista de grande qualidade, ele é arqueólogo e especialista em topografia do mundo antigo. Assisti algumas entrevistas com ele em programas de televisão que versavam sobre temas da Grécia Antiga e tinha me impressionado com o seu conhecimento do assunto. Ao contrário de outros escritores, que precisam pesquisar o assunto do seu interesse, Valerio Massimo Manfredi vivencia as sensações: geralmente os seus livros surgem do trabalho que realiza, e não raro ele faz escavações e buscas sobre os próprios assuntos que depois ficcionaliza. A sensação de realidade que permeia os seus livros é muito forte. Claro que tal qualidade seria inútil se ele não escrevesse muito bem, utilizando de forma adequada as estruturas narrativas para criar verossimilhança.

Para contar a história de Atenas, o narrador-autor utiliza um interessante recurso, que é a sobreposição de uma história pessoal de sua amizade com um ateniense com as descrições do passado. Através deste artifício, o autor vai contando a trajetória de Atenas e relacionando com a história da sua amizade com Kostas Stavropoulus. Apaixonado pelo passado da sua cidade, o ateniense escuta as concepções históricas do narrador e sempre acrescenta um toque pessoal, um detalhe instigante, uma versão secreta dos fatos. Com o passar dos anos, ao ver que Kostas está cada vez mais envelhecido e frágil, o narrador envia fitas dos capítulos do livro que está escrevendo, pretendendo, como uma Scheherazade moderna, estender a vida do amigo por meio da história. Em um primeiro momento, achei este recurso constrangedor, para não dizer piegas. Mas logo me envolvi com a história, em especial por que Kostas é um personagem e tanto, graças às suas intervenções apaixonadas a favor da Grécia. Sem contar que a história da amizade de dois homens unidos pelo amor à cultura ateniense acaba mostrando que o mais importante no legado de Atenas não foram os monumentos, as esculturas, as peças de teatro ou as discussões filosóficas, e sim os homens anônimos que a constituíram e acreditaram nos seus ideais. No diálogo dos dois amigos, Atenas deixa de ser uma cidade e passa a ser um estado de espírito.

A leitura não decepciona. Por mais tentador que fosse abordar as outras cidades-estado da Grécia (especialmente o clássico contraste dos ideais democráticos de Atenas em contraposição ao militarismo exarcebado de Esparta), a opção do autor de concentrar a sua atenção somente na história de Atenas revela-se um grande acerto. O leitor acompanha o surgimento da futura capital dos gregos a partir dos seus mitos de fundação. Em seguida, é apresentado às primeiras tribos que fundaram Atenas e toma conhecimento da forma com que a cidade cresceu, em um cadinho de culturas e influências que não mais se repetiriam no mundo. Um detalhe que demonstra a vivência pessoal do autor e a forma com que a sua ficção se apossa desta vivência é a descoberta arqueológica, embaixo da colina na qual se situa o Partenon, de um Palácio que remeteria à própria concepção do labirinto onde morava o Minotauro. As possibilidades surgidas desta descoberta são espantosas, remetendo a uma possível colonização micênica da Atenas primitiva e a criação artificial de um mito de origem que envolvia o próprio Teseu, patrono da cidade.

Um dos grandes méritos do livro é apresentar personagens da História da Humanidade como pessoas normais que estivessem andando por Atenas, imersas em seus problemas cotidianos. A linguagem leve e simples aproxima o leitor de homens como Péricles, Sólon e Fídias. Os conflitos enfrentados por eles passam distante do didatismo comum de um compêndio de História, pois Péricles precisa conviver com a situação de estrangeiro da sua esposa, Sólon lida com problemas burocráticos quase intransponíveis e Fídias se preocupa em como conseguir pedras para as suas construções. Homens gigantescos também são atormentados por problemas comuns. Ao mesmo tempo, as descrições vívidas dos cenários e das imagens que existiam na época praticamente recriam a Atenas do período. É impossível ler a descrição do Partenon sem se arrepiar, sentindo como se o autor estivesse passando por entre as suas colunas no exato momento da leitura, descrevendo aquilo que enxerga com precisão inigualável. Ao mesmo tempo, cresce uma certa tristeza por sabermos que aquela descrição pertence ao mundo da Literatura, da ficção, e são imagens irrecuperáveis da História humana. Para um advogado, a descrição do sistema de justiça de Atenas é tão real que o leitor se sente como se estivesse adentrando na Ágora de Atenas. Aliás, a democracia é um sistema político que praticamente detona com a noção de justiça que temos hoje. Ainda bem que os romanos acertaram esta bagunça criada pelos gregos… inacreditável que a Justiça ateniense fosse tão confusa que um cidadão do porte de Temístocles acabasse sendo vítima de ostracismo simplesmente por causa da inveja dos seus pares.

Apimentando um pouco a história, o autor elenca uma série de histórias apócrifas e não-confirmadas. Não são fontes reais, mas histórias que foram passando de geração em geração. Apesar de fornecer um pouco de alívio para quebrar a monotonia histórica da narrativa, uma vez que estas histórias ajudam a dar um contraponto fictício, percebi que esta dissociação entre ficção e realidade gerou uma desconfiança que afetou tanto um lado quanto o outro. O narrador – que, por seu envolvimento pessoal com a história e com o personagem Kostas, já não era muito confiável – acaba por perder a credibilidade por completo. Algumas histórias aconteceram, mas foram relegadas à categoria de anedota. Por sua vez, eventos históricos tais como a famosa batalha de Plateia, por sua implausibilidade real e a forma jocosa com que foi contada, acabaram sendo contaminados de tal forma que chegaram a assumir o caráter  de ficção. Por este motivo, percebi que o livro ficou no meio caminho entre ficção e realidade. Se isto é bom ou ruim, sou incapaz de dizer. Só entendo que, para mim, esta dicotomia não funcionou muito bem.

No entanto, nada disto atrapalhou completamente a fruição do livro e o prazer genuíno com que o autor se entregou para a história. A sensação de caminhar pelas ruas de Atenas foi insuperável, para não dizer de tirar o fôlego. Após um início de estranheza com a forma encontrada para contar a história, a trama paralela da amizade de dois homens apaixonados por Atenas acabou se tornando envolvente, em especial com as reflexões sobre a velhice e a passagem inexorável do tempo. Apesar de ser o berço da civilização ocidental, nem mesmo Atenas conseguiu escapar da passagem dos anos, mas o único consolo restante é saber que o seu espírito continua ecoando no mundo atual.  Para o bem ou para o mal, todo homem é um pouco ateniense, e esta conclusão talvez seja a maior homenagem para a cidade que ultrapassou milênios para se erigir um farol das aspirações da Humanidade.

Não posso terminar esta postagem sem uma gravura de Leo von Klenze que, por meio da arte, tenta trazer a Atenas do passado de volta à vida:

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Arquivado em Grécia Antiga, História, Leo von Klenze, Literatura, Valerio Massimo Manfredi

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