A atraente estética do grotesco

Quando assisti o vídeo que segue abaixo, a minha primeira reação foi de incredulidade: achei simplesmente incrível que uma pessoa tivesse se prestado a ter ideia tão absurda como fazer um bolo no formato de um ser humano e dar de comida para outras pessoas. Pareceu algo – digamos – um tanto CANIBAL. Pouco importa a cor da pessoa retratada no bolo, o ato de devorar um corpo humano pareceu chocante, ainda mais quando o interior do bolo era vermelho.

Mais impressionado fiquei quando soube que tal bolo era uma tentativa de expressão artística do autor, o que demonstra a minha tese de que a arte anda por caminhos muito estranhos nos dias atuais, flertando com o mais absoluto mau gosto. Claro que também fiquei impressionado ouvindo os gemidos lancinantes que brotavam da “instalação artística” toda vez que era cortada, e demorei alguns segundos para perceber que o artista deixara somente a sua cara de fora, com o intuito de transmitir maior verossimilhança ao corpo representado no bolo.

Segue o vídeo:

Isto aconteceu na Suécia, mas poderia ser em qualquer canto do mundo.

Passada a reação de asco, percebi que, se existe algum lugar verdadeiramente criativo no mundo atual, um lugar sem regras definidas e onde a imaginação pode atingir alturas inimagináveis, é na exploração do mau gosto. Quando as pessoas rompem as estruturas da normalidade e realizam transgressões, elas geralmente acabam desembocando na contrariedade geral. No entanto, não posso deixar de imaginar que mau gosto é uma expressão de cunho pejorativo que define aquilo que vai contra o gosto de alguém. No caso, este alguém seria a sociedade que definiu, depois de anos de convivência mútua, o que seria aceitável. Ou seja: o mau gosto também é a sociedade falando, e cabe ao artista transgredir esta noção.

Esta constatação me fez lembrar do grotesco, em especial do livro do Wolfgang Kayser que li na época do Mestrado , “O Grotesco” (preciso muito comprar este livro, ele é inesquecível). Por muitos anos, o grotesco foi tido como expressão do mau gosto determinado por uma época, mas a passagem do tempo reconheceu o seu caráter transgressor e ele acabou virando arte. Pena que, em alguns casos, levaram centenas de anos. Archimboldo já foi considerado grotesco. Os pintores impressionistas também eram considerados grotescos, assim como os cubistas.

Começo a acreditar que qualquer expressão artística, para ser inesquecível, precisa ser grotesca, precisa atentar contra o “bom gosto”, precisa atacar as estruturas. No entanto, discordo de intervenções midiáticas como as feitas na Suécia. O artista ainda pode sacudir o establishment por meio de um avanço gradual da sua visão singular, mas também não precisa partir diretamente para a transgressão absoluta. Existem várias maneiras de ser original e transgressor, sem que resulte em uma atitude chocante. No caso específico do vídeo, o que era uma obra de arte grotesca – um bolo no formato humano – passou a ser uma homenagem ao mau gosto – com o artista gemendo cada vez que era cortado o bolo e sendo alimentado de suas partes -, e com um componente adicional de racismo (que nem vale a pena abordar). Uma overdose de sensações.

Capa do CD do Cannibal Corpse - repugnante e marcante

O grotesco ainda atrai, ainda gera repercussão. Por mais horrorizados e enojados que as pessoas fiquem, ainda assim elas retornam para a imagem, com uma fascinação mórbida pela estética do imponderável representada nela. Mas não se pode exagerar, sob pena de descambar no mau gosto.

No entanto, ainda acho que o grotesco mais legal de ser explorado não é aquele que descamba para a grosseria dos sentidos, mas o grotesco que se revela pela subversão das normas. Muito mais sutil, muito mais difícil de fazer. Qualquer um consegue pegar uma ideia e deturpá-la até o máximo com o intuito de chocar alguém. No entanto, pouquíssimos conseguiram pegar ideias comuns e subvertê-las, brincar com as expectativas, distorcer as possibilidades.

Um exemplo que me ocorre é o conto “O Imortal”, de Jorge Luis Borges,  quando o personagem chega na cidade dos imortais, onde caminha por um palácio labiríntico de corredores acabando em paredes, escadas de cabeça para baixo, portas mínimas que nenhum homem conseguiria passar, janelas abrindo para nenhum lugar, e percebe que a imortalidade retirou todo o significado das invenções e descobertas humanas, tornando-as obsoletas. Este conto me parece um exemplo perfeito de grotesco, em especial quando o personagem encontra um Homero barbudo e macilento, de pele acinzentada. Engraçado que ninguém tenha visto ainda o forte diálogo que este conto trava com o meu “Antes da Batalha”, onde um Homero distorcido também surge como invenção imortal de um agrupamento de homens anônimos. Outra hora falo mais sobre o meu conto.

Na minha concepção, contos como este de Jorge Luis Borges são o grotesco ideal. E quando Giovanni Battista Piranesi fez o quadro “Via Appia, 1756”, me faz recordar direto o conto do escritor argentino e a concepção de grotesco. Toda vez que penso na cidade dos imortais, é deste quadro que lembro: uma cidade sem tempo, sem passado ou futuro, vivendo com a poeira dos séculos.

"Via Appia, 1756", de Piranesi - perfeita demonstração de grotesco

Quadros como o de Piranesi e contos como o de Borges mostram que é possível romper a normalidade sem descambar para o mau gosto. No entanto, um dos sintomas da falta de imaginação atual é quando alguém escandaliza as convenções sociais pelo choque e pelo nojo. É tão fácil fazer isto que nem vale a pena; o verdadeiro artista é aquele que transforma a transgressão em matéria prima, e não aquele que busca os louros fáceis da fama rasteira. Não preciso nem dizer que Borges e Piranesi durarão para sempre, enquanto o cara que fez esta “instalação artística” – quem mesmo? – logo será esquecido.

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2 Comentários

Arquivado em Generalidades, Giovanni Battista Piranesi, Grotesco, Jorge Luis Borges

2 Respostas para “A atraente estética do grotesco

  1. César Alves

    Juro que não entendi quando você fala “mau gosto”. O gosto é ruim mesmo ou ele apenas não é o teu?

    • Tens razão, César. Quem atribui gosto a algo é sempre a pessoa que o classifica. Necessariamente nem tudo que eu ache mau gosto pode ser mau gosto para todo mundo. Obrigado pela leitura. Um abraço. 🙂

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