Os cachorros do Campus da Vale da UFRGS

Por incrível que pareça, um dia eu fui estudante. Não faz muito tempo. De certa forma, continuo em constante estágio de aprendizado, e começo a me conformar com a ideia de que jamais deixarei de estar estudando, seja Literatura, seja Direito, seja as áreas do conhecimento humano que me atraem.

O que pouca gente sabe é que, antes de entrar no Mestrado em Literatura Comparada, fiz um ano inteiro da Graduação em Letras pela UFRGS. E eu tinha uma disciplina de Produção Criativa. Oh, sim. Nesta aula, ministrada uma vez por semana, devíamos levar textos produzidos com base nas especificações dadas pelo professor: descrição de pessoa, descrição de cenário, ponto de vista narrativo, diálogos e por aí vai. Bem, por motivos processuais evidentes, vou silenciar sobre as opiniões caústicas que tinha em relação a esta disciplina, a qual literalmente tentava forçar pessoas a escrever textos literários, com resultados, na maioria das vezes, trágicos. Sei disso por que o professor compartilhava os piores exemplos com a sala, inclusive nominando o autor (sempre me recordo da tristeza da pessoa que tinha o texto espinafrado em público, pois, por pior que seja, um texto ainda é uma extensão da alma do seu autor). Ao final da leitura, a turma devia sentenciar se aquilo era um texto, uma crônica ou um conto. Se tivéssemos três polegares, seria equivalente a um circo romano.

Eu aproveitava a disciplina para brincar com os limites da minha escritura. Fiz vários textos, um mais engraçado e polêmico que o outro, geralmente com histórias que versavam sobre o cotidiano dos meus colegas, mas sempre sob uma ótica diferente e com bastante crítica ao sistema de ensino da UFRGS.

Ah, o professor também escolhia o melhor texto que tinha lido, e as minhas vitórias eram frequentes. Ou era eu ou era o Espártaco Dutra. Para meu absoluto horror, ele dizia que eu escrevia como o Luis Fernando Veríssimo – acredito inclusive que a ofensa é mútua -, um escritor que, na opinião do mestre, era o maior e melhor do mundo, um injustiçado pela ABL, pelo Nobel, pelo Oscar. Talvez por causa desta comparação eu tenha deletado grande parte dos textos produzidos naquele ano. Lembro vagamente que fiz uma descrição física do meu irmão que deixou metade das meninas da aula apaixonadas por ele sem sequer conhecê-lo – as gurias enlouquecem mesmo quando sabem de um cara abduzido. Lembro também que criei uma vistosa teoria da interconexão de todos os lagos do mundo, e que o Monstro do Lago Ness morava no laguinho próximo ao Campus do Vale, o que explicava as misteriosas bolhas que eu via surgindo de vez em quando. Mas a recordação mais resistente era quando o professor terminava de ler o texto, me olhava e dizia “Mas tu és um advogado… um advogado… um ADVOGADO!”, como se fosse inconcebível que advogados também pudessem escrever.

Mexendo nos arquivos que estavam em um computador desativado, acabei localizando um destes textos, que me deu inclusive um certo reconhecimento nos corredores do Instituto de Letras. É um texto em que eu falo sobre os cachorros que infestam o Campus do Vale. Perdoem o estilo ainda incipiente, as piadas desajeitadas e as conclusões pueris; eu ainda estava (ainda estou) em formação. Vale mais pela discussão levantada e por me lembrar do passado. Não o considero um conto, mas um bom início para reflexões perturbadoras.

Lá vai:

O último dia de um bife

Eu já tive um nome, mas hoje sou um assobio. Às vezes sou chamado de “matungo”, “vira-lata”, “sarnento” ou “guaipeca”. Não fico ofendido: as pessoas se enganam com a aparência. Olham meus olhos cobertos de remelas, o pêlo gasto e surrado em alguns pontos, os carrapatos por trás das orelhas, o rabo saltitante e pensam, “é um cachorro”. Toda conclusão simplista é um engano: cachorros não pensam, não leram a Ilíada, não estudaram o Machado de Assis em Estudo de Autor Brasileiro, não digladiaram com as idéias de Saussure, não tomaram café no Antônio. A verdade é que eu não sou um cachorro – sou um aluno.

Como ocorreu esta transformação? Mistérios que somente a UFRGS pode explicar. Assim como algumas pessoas acordam transformadas em baratas, outras viram cachorros. Esta metamorfose ocorreu um dia depois do meu jubilamento. Admito que tenha sido um pouco negligente na minha relação longa (muito longa) com a UFRGS, mas nada justificaria punição tão grande. Eu jamais conheci um homem que tivesse sido jubilado; agora sei qual é o destino depois do jubilamento, uma vida de chutes, maus-tratos e muitos assobios. Agora sei o motivo desta multidão de cachorros caminhando pelo Campus do Vale: são os alunos jubilados assombrando seus conhecidos, tentando evitar que terminem como eles enquanto fogem da sarna como os europeus outrora fugiram da peste negra.

O meu dia começa como sempre. Sentado na frente da porta do Instituto de Letras, vejo os alunos chegando. Pelas suas faces, é possível ver quem logo estará me acompanhando na minha jornada canina, quem segue rumo ao jubilamento. Hoje eles estão rindo, mas logo estarão chorando. Alguém já ouviu um cachorro chorar? Acreditem, é horrível.

Os alunos passam por mim e são engolidos pelo prédio, que um dia engoliu o meu tempo e cuspiu de volta um cachorro. Alguns me dirigem olhares de pena, outros dão risadas. Tenho sorte de não levar um chute, estou sentado no caminho da porta; ainda tenho uma boa dose de petulância.

As aulas começam e eu investigo os corredores. Por questão de hábito, perco alguns minutos na fila do xerox, depois lembro que não preciso mais tirar cópias ou ler polígrafos – ser cachorro tem que ter alguma vantagem. Caminho no corredor silencioso, lançando olhares para as salas de aula. Quando estou de bom humor, escolho uma sala e acompanho a aula até que alguém me enxote.

Depois de passar pelos corredores, resolvo dar uma passadinha pelo Antônio. Assim como os homens, um dos nossos defeitos é a esperança. Imaginar que o bar do Antônio deixe alguma sobra de comida para pobres cães famintos é como acreditar que eu possa voar. Tudo no bar do Antônio é reaproveitado, inclusive as sobras de comida, ou os alimentos azedos. Não me surpreende que nada tenha sido deixado para nós. O Antônio está se arriscando: já ouvi boatos de que um grande agrupamento canino pretende invadir o bar em uma sexta à noite, roubar mantimentos e ainda defecar em todas as mesas. Não consigo compreender: se os cachorros e o Antônio convivem no Campus do Vale, é óbvio que algumas regras de coexistência pacífica devem ser traçadas, ou será o caos. Quem sabe se, ele nos desse comida, não seríamos ótimos seguranças? É um bom ponto de negociação.

Saio do Antônio e caminho pelo Campus. Procuro algumas cadelas para uma sessão de divertimento antes do almoço. Engraçado como as mulheres, depois do jubilamento, param de fingir e assumem seus instintos mais primais. A maioria delas nem quer saber de conversa, vão direto ao que interessa – e nem precisam estar no cio! A população masculina está diminuindo no meio canino, e está cada vez mais difícil saciar a fome sexual das nossas cadelas. Parece que alguns estrangeiros andaram aparecendo no nosso meio, um pessoal da PUCRS, outros tantos de plagas mais distantes (Unisinos, Ulbra e até um cachorro da UFPEL, que não causa problemas nesta questão, mas nos constrange com atitudes, digamos, pouco acadêmicas). Esta miscigenação não pode ser coisa boa. Afinal, apesar de tudo, ainda somos alunos da UFRGS, e gostaríamos de manter a pureza da nossa raça.

Estou com azar, não achei nenhuma cadela disposta hoje. Devem estar todas no prédio da Veterinária, saracoteando atrás de carne nova, algum pastor alemão fornido ou um rottweiller bem selvagem para segundos de cópula suada. Em compensação, acabo de encontrar Matusa. Dizem que ele foi o primeiro jubilado da história da UFRGS, o decano dos cachorros, o ser que traçou os limites do Campus e provou que os cachorros podiam conquistá-lo. Dizem que sabe mais que o homem que projetou este lugar longe dos homens e dos deuses, este Olimpo da educação. Seu pêlo branco só existe na imaginação, e o tom rosa da pele encarquilhada assusta pela fraqueza.

Caminhamos alguns metros juntos. Matusa sempre foi um cão de poucos latidos. Penso em várias maneiras de romper o silêncio, mas ele acaba me surpreendendo:

– Já é março?

– Estamos em maio, Matusa.

– As aulas começaram? Não estamos em nenhuma greve?

– Não e não.

O velho fica agitado. Deve estar caduco.

– Então o estoque deles está acabando… preciso avisar os outros.

– Avisar os outros do quê?

– Para não chegarem perto do RU nas tardes de quinta.

Matusa se afasta, andando o mais rápido que um cachorro da sua idade pode caminhar sem se arrastar. Eu permaneço parado. O que Matusa quer dizer com não chegar perto do RU nas tardes de quinta? Ele sabe que lá é um ponto de encontro famoso da cachorrada, a nossa melhor chance de alimentação. Qual será o segredo?

A curiosidade não mata só gatos, também mata cachorros. Na tarde daquele dia, meus passos se dirigem até as proximidades do RU. O silêncio é total, quebrado pela dança das árvores com o vento. Do que será que Matusa tem tanto medo?

A porrada sai do nada e atinge a minha cabeça. Consigo ficar de pé e vejo os funcionários do RU me cercando, facas e porretes nas mãos. A compreensão me atordoa, ou talvez sejam os restos da porrada. Descobri o ciclo evolutivo dos alunos da UFRGS, e acabo de virar o último elo da cadeia.

Os cachorros na porta do RU. "Concluam os cursos de vocês ou juntem-se à nossa horda de jubilados"

Relendo o texto praticamente doze anos depois, percebo que os pontos de destaque continuam sendo aqueles que recordo: a pergunta de Matusa se a UFRGS estava em greve (era constante); o fat0 da curiosidade matar cachorros além de gatos; o bar do Antônio e as constantes denúncias de reaproveitamento de restos de comida; o destino misterioso dos alunos jubilados. “Matusa sempre foi um cão de poucos latidos” provavelmente é uma das melhores frases que já escrevi na vida. O pior é notar que, doze anos após tal descrição, pouca coisa mudou. Alunos entram na Universidade, alguns saem, outros somem. E os cachorros continuam lá, esperando comida. A gente pensa que o tempo muda as coisas, mas tudo sempre continua igual.

Uma última nota, e esta de repúdio: recentemente, um segurança matou um cachorro no Campus do Vale alegando que ele teria tentado atacá-lo. Em todos os meus anos de UFRGS, nunca vi nenhum cachorro atacar qualquer pessoa. São os bichos mais dóceis do mundo, pois dependem dos alunos para a sua sobrevivência, e não existe cachorro mais encantador e fiel do que um vira-lata. Por que é tão difícil acreditar no homem, conhecendo os bichos? O cara que mata um cachorro e mente, logo matará uma pessoa e também mentirá.

Muito comum de acontecer são os cachorros assistirem aulas de Literatura no Campus de Vale. Eram mais comportados do que alguns colegas. Lembro de um que adorava as aulas de Linguística. Esta foto está em um blog, e segue o Link: umaviajante.files.wordpress.com/2011/03/dog.jpg

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