Livro: “Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk”, de Nikolai Leskov

Considerando-se que a Rússia é um país de enormes dimensões, espalhado por dois continentes, não deixa de ser uma grande injustiça que a teoria literária limite o estudo da produção russa a três nomes: Dostoiévski, Tchekhov e Tolstói. Em termos comparativos, seria como resumir a integralidade da literatura brasileira nos nomes de Machado de Assis, Clarice Lispector e Guimarães Rosa, ou seja, impossível ler esta síntese sem sentir a falta de dezenas de nomes igualmente representativos. Desta forma, soa injusto considerar a literatura russa deixando de lado as obras de Górki, Púshkin, Turguêniev e Bulgakóv, para ficar em alguns nomes.

Em boa hora a literatura russa está sendo redescoberta, e a edição de “Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk”, de Nikolai Leskov, é um excelente exemplo. Leskov entrou para a história da crítica literária por causa do estudo de Walter Benjamin sobre o narrador, no qual a obra do escritor russo serviu de base para as reflexões de como funcionavam os mecanismos narrativos em um mundo repleto do ideário nazista. No entanto, após a leitura de “Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk”, podemos dizer que Leskov é muito mais do que diz o ensaio de Benjamin.

A história é relativamente simples: uma mulher jovem, estéril, casada com homem velho e rico, sente a sua vida afundar no tédio até se apaixonar por outro homem de classe inferior. Ela promete que o criado irá se tornar o dono das propriedades do marido e, a partir deste momento, os dois não economizam esforços para chegar a tal objetivo. Olhando por este ângulo, a trama até poderia soar como um clichê, se, desde o início, o autor já não anunciasse um inevitável paralelo com “Macbeth”, de Shakespeare. Quem conhece a história da peça do dramaturgo inglês já sabe que uma desgraça é iminente, pois “Lady Macbeth” é o personagem catalisador das desventuras do próprio marido, eis que a sua ambição desmedida é o impulso principal para os primeiros assassinatos. O fato de existir uma nova forma de Lady Macbeth no interior da Rússia atesta que a literatura se repete nas atitudes humanas, e os personagens criados pelos autores não passam de reflexos cujas tragédias tendem à repetição eterna.

É conveniente destacar que, para o conceito de romance, a narrativa de Leskov se aproxima mais de uma novela ou um conto estendido. A tensão da trama se desenvolve em poucas páginas, assim como existe um número diminuto de personagens. No entanto, as classificações deixam de ter interesse no momento em que se adentra no romance e o leitor se perde na narrativa. A alternância de vozes dentro da história e a verdade concedida para cada uma delas faz com que os personagens se tornem palpáveis, assim como as suas motivações. A rotina diária de Catierina Lvovna, mulher presa pelo casamento a um homem que não lhe devota o mínimo sentimento, faz com que o leitor não só se identifique com o drama, como também lhe apóie quando ela inicia o seu caso amoroso com o criado. O assassinato do marido acaba se tornando perdoável diante da sua inevitabilidade. No entanto, à medida que a história segue seu curso e os assassinatos se sucedem, a compreensão inicial com os motivos de Catierina acabam cedendo espaço para o asco. O leitor rompe a tolerância com as atitudes da personagem e passa a sentir que foi enganado pelos motivos iniciais, que só serviram para justificar o crime cometido. Leskov consegue esta inversão de expectativas sem pressionar a narrativa ou sem usar truques. É o leitor quem vai evoluindo a sua compreensão e modificando a sua visão sobre a história, deixando de desejar o bem para a “mocinha” e passando a esperar pela sua punição.

Nikolai Leskov é considerado um dos grandes retratistas da alma russa. Somente lendo o livro podemos entender o quanto esta frase é verdadeira. As discussões e conversas dos criados de Catierina Lvovna transbordam de vivacidade. Os diálogos são rápidos, incisivos e com um constante tom pícaro e sedutor, entremeando fatos do cotidiano com alusões de cunho sexual. A primeira vez em que Catierina presta atenção em Serguiêi ocorre quando ela interrompe um folguedo dos criados, que estavam brincando de se pesar, e sobe na balança para romper a monotonia. Serguiêi, ao ver o peso da sua senhora, finge surpresa e menciona, em algo que nos tempos atuais poderíamos considerar como uma cantada, que, com aquele peso, jamais se cansaria de carregá-la no colo. Aquela simples frase faz com que Catierina fique ruborizada e sinta o desejo de continuar ouvindo as palavras ditas pelo criado. Para uma mulher jovem, que jamais escutara qualquer tipo de elogio, a provocação inocente de Serguiêi desperta um vulcão de novas sensações. Além disso, a postura dos criados, de entusiasmar o romance ao mesmo tempo em que o repudiam e falam mal da patroa pelas costas, demonstra que o desejo deles era acompanhar a tragédia que se desenrola diante dos seus olhos, no desejo tão humano de “ver o circo pegar fogo”.

À medida que a atração de Catierina Lvovna cresce, os criados deixam entrever que Serguiêi é um alpinista social, um criado acostumado a flertar e dormir com as suas patroas por maiores benesses. No entanto, Catierina não se afasta e, com a cegueira típica dos apaixonados, imagina que Serguiêi possui o mesmo sentimento que ela. Novo mérito para Leskov, que deixa entrever, nas condutas do criado, que o seu interesse pela patroa nunca foi de cunho amoroso, ao mesmo tempo em que revela, nas palavras e atitudes de Catierina, um amor intenso, infantil e com toque de desespero, típico de uma mulher que jamais foi amada. Apesar de muitas pessoas não verem análise social na obra de Nikolai Leskov, é possível perceber uma mal-disfarçada crítica ao casamento por interesse, arranjado de forma prévia e sem que os cônjuges se conheçam bem. Uma pessoa pode trazer o maior inimigo para dentro de casa, para a santidade do lar.

Destaque para os diálogos do casal, repletos de infantilidades e de lugares comuns, tais como acusações mútuas de desinteresse, juras patéticas de amor eterno, súplicas chorosas e perdões. Os jovens não mudaram nada desde a época de Leskov, pois não é difícil imaginar dois adolescentes atuais com as mesmas conversas. Nas mãos de um escritor sem perícia, este material se tornaria desgastante e chato, mas o escritor russo consegue transformar o clichê em ouro, pois são justamente os diálogos que reforçam o caráter instável dos personagens e as suas motivações. Catierina, que inicia o livro com inocência e juventude, logo se torna uma máquina de matar, e o amor puro acaba virando algo obsessivo. As conversas de adolescentes passam por uma mutação: antes dos assassinatos, elas pareciam inocentes, a mulher tentando cativar o homem, que faz uma série de fingimentos no qual ambos acabam capitulando, em um jogo de sedução; depois dos assassinatos, os mesmos diálogos passam a espelhar a obsessão apaixonada e insana da mulher, ao passo em que o homem deixa entrever os seus motivos egoístas, sendo que ambos capitulam não mais por sedução, mas por conveniência. O jogo amoroso é alterado diante dos olhos do leitor e sem que nenhum componente linguístico seja modificado.

Quando o casal inicia a sua sequência de mortes, os falsos moralismos são pouco a pouco abandonados. De repente, matar aqueles que se opõem aos desejos dos personagens acaba virando o caminho mais tranquilo. Depois que o primeiro assassinato é cometido, a inocência já foi perdida, a alma já está corrompida, o inferno já está assegurado. Imersos no seu comportamento doentio, Catierina e Serguiêi não sabem mais o que é certo, e continuam vivendo na inocência dos seus diálogos, cuja infantilidade e falta de noção começam a irritar o leitor. Deve-se realçar que Serguiêi foi quem mais sentiu a consequência dos crimes praticados com Catierina, demonstrando um arrependimento maior, mas logo sufocado pela própria ambição. Catierina jamais teve as mesmas implicações morais: imersa em um sentimento forte criado mais pela sua imaginação do que pela realidade, acompanhada pela infantilidade imanente da sua conduta, ela sequer é capaz de entender o motivo da sua prisão, tanto que a única preocupação restante é se ficará junto com Serguiêi durante o cativeiro na Sibéria.

Em uma primeira análise, a morte de Catierina soa artificial como uma lição de costumes: a morte é o destino de quem ama com intensidade além do normal. No entanto, observando-se este evento com maior atenção, se percebe que Catierina foi fiel à sua paixão do início ao fim, nunca questionando a força do sentimento. Ao contrário de outros romances, em que a paixão da personagem é distorcida e limitada por livros românticos e visões idealizadas do objeto amado, desde o início o narrador fala que Catierina não sofreu a influência de nenhum livro, pois eles inexistiam na casa. Em “Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk” está a paixão em seu estágio mais bruto, não depurada por anos de prática romântica.  Talvez por este motivo a história seja tão inquietante: se não existissem os freios criados pela sociedade na subjetividade das pessoas, o caos estaria instaurado em todas as relações humanas, pois mataríamos ou morreríamos por causa dos sentimentos.

Pela economia dos seus termos e pela força dos personagens, bem como a descrição viva das situações, o livro de Nikolai Leskov se destaca no cenário da literatura russa, mostrando que o autor merece maior realce. Ao contar a tragédia de uma mulher enlouquecida pelo amor, capaz de perder a própria vida para defendê-lo, Leskov revela a atemporalidade da sua narrativa, deixando clara a correção do provérbio bíblico: “A mulher sábia edifica a sua casa. A tola a derruba com as próprias mãos”.

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