O mais terrível livro não-lido

O famigerado livro cuja capa está acima representada – “Nascimento e Morte do Sol”, de George Gamow – foi o responsável pelos momentos mais assustadores da minha infância, sendo igualmente o culpado pelos pesadelos que assolavam as minhas noites de então.

Este livro estava na biblioteca do meu pai. Ocupava um canto despretensioso da prateleira. Não sei o motivo pelo qual ele estava na biblioteca, nem a forma com que meus pais o adquiriram, pois passava longe dos assuntos que interessavam eles. No entanto, contra a lei das probabilidades e contra a própria lógica, o livro estava lá, o que depõe a favor da ideia de que toda obra procura um lugar para descansar, por mais implausível que seja.

Não sei qual foi o fenômeno que ocorreu comigo, mas, desde a primeira vez que coloquei os olhos na capa do livro e li o seu título, o horror nasceu. Para uma criança, este momento é inesquecível, assim como o momento em que o Medo nasce – recordações inesquecíveis e que se perdem no passar dos anos, mas que todas as pessoas vivenciaram em algum instante. As implicações lançadas pela capa do livro foram instigantes. Quer dizer que, se um dia o sol tinha nascido, por conseguinte, um dia ele também iria morrer? Quem iria brilhar quando o sol se fosse? Como o sol poderia morrer e abandonar a Terra? No meu mundo infantil, era simplesmente inacreditável que aquele astro que não conseguimos olhar direito, que às vezes se escondia atrás das nuvens, que outras vezes cedia espaço para a chuva, que à noite se transformava na Lua, um dia iria morrer. Não havia noite que eu não deitasse pensando que o sol poderia estar morrendo em silêncio agonizante naquele exato momento, enquanto a Lua zombeteira passeava pelo céu.

A melhor maneira de acabar com este medo seria ler o livro. Depois da leitura, eu provavelmente terminaria com as minhas fantasias sobre o assunto e veria a realidade: o sol ainda irá demorar milhões de anos para morrer e, quando isto acontecer, não se sabe sequer se ainda existirá a vida como conhecemos na Terra. No entanto, também existia o horror de que o livro expusesse alguma teoria que adiantaria a morte do sol por muitos anos. Em suma, eu senti medo da leitura, medo das possibilidades aterradoras que ela poderia evocar. Ainda não li o livro e, até hoje, a visão da sua capa me desperta um arrepio. Enquanto ele estiver confinado na prateleira, tenho a ilusão de que o sol está salvo.

O medo irracional de que o sol irá morrer um dia me fez recordar de Anaxágoras de Clazômenas (c. 500 – 428 a.C.), o primeiro filósofo autorizado a ensinar em Atenas, o qual acabou sendo exilado da cidade por que defendeu a ideia de que o Sol era “maior do que o Peloponeso”. Depois que foi expulso, ele acabou abrindo outra escola filosófica, em Lâmpsaco, colônia de Mileto. Anaxágoras foi precursor de muita coisa, mas o que mais me impressiona, até hoje, é o fato dele ter dito que a Lua era um corpo celeste mais próximo da Terra do que o Sol, assim como a sua defesa da teoria de que a Lua era um pedaço desgarrado da Terra vagando no universo. Tanto ele quanto Empédocles diziam que a luz lunar vinha do Sol. Por muito menos que isto, Galileu quase foi morto.

Anaxágoras de Clazômenas

O meu olhar infantil sobre o sol e a certeza da sua finitude não é tão diferente da ideia do tamanho gigantesco dele, segundo Anaxágoras. Provavelmente, se o filósofo grego tivesse dito que o sol iria um dia morrer, ele não teria sido expulso de Atenas, e sim linchado.

Não existe evidências de que ele tenha pensado o passo imediatamente posterior ao tamanho do astro solar, ou seja, a sensação de que as coisas mensuráveis são, também, finitas. Mas existe uma parte de mim que imagina Anaxágoras sentado à beira mar, olhando o pôr do sol distante nas águas do Mediterrâneo e pensando que aquilo um dia iria acabar, pois tudo chega ao fim, assim como ele um dia iria morrer. Neste momento, Anaxágoras também deve ter sentido o arrepio percorrer a sua pele, sem saber que somos irmãos siameses dos nossos próprios medos.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Anaxágoras de Clazômenas, Filosofia, Uncategorized

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s