Nós, os tijolos do Roger Waters

Muitas coisas podem ser ditas a respeito de “The Wall”, álbum clássico do Pink Floyd que atravessa os anos com as suas mensagens pacifistas e existenciais. Nos últimos dias, li várias opiniões sobre este álbum, que vão desde os pós-modernos que criticam a vacuidade das músicas, chamando-as de sonolentas e pouco imaginativas, até aqueles que endeusam o álbum, considerando-o quase como um Evangelho, ou um sopro de voz divina.

Parece-me um pouco de pretensão dizer como os outros devem se sentir quando lêem um livro, ouvem uma música, apreciam um quadro. A experiência artística tem um pouco de objetividade e racionalismo, e muita subjetividade. Uma das coisas que o Direito me ensinou é que todo mundo possui a sua própria verdade e, desta forma, amplificando o conceito, todo mundo possui a sua própria forma de experimentar a arte. O máximo que posso dizer é como eu me sinto, como é a relação que eu tenho com um livro, com uma música, com uma pintura.

E o que posso dizer é que estive no show do “The Wall” ontem, no dia 25 de março de 2012. Presenciei, in loco, a exposição sensorial completa do show: a construção do muro diante dos olhos da plateia, as mensagens que se alternavam no telão em forma de palavras, desenhos e fotos, o som que partia de todos os lados do estádio, as figuras ameaçadoras sobrevoando a plateia ou encarando o público com olhos hostis do palco. Não existe DVD ou Blu-Ray capaz de conter tamanha explosão de sentidos, o som que parece se confundir com os corpos, os gritos (da música? do público? meus?) que assolavam o local, o entorpecimento causado por imagens fortes e vídeos de altíssima carga emotiva.

Roger Waters

O que pretendo falar é o “The Wall” como conceito, como ideia, como articulação criativa. Na minha opinião, não é a música ou os integrantes da banda que transformam o álbum em algo lendário, e sim a sua visão de mundo, o microcosmo contido dentro de cada música e como elas se articulam entre si, em um mosaico intertextual.

Eu já fui em muitos shows. Não tantos quanto gostaria, mas mais do que imaginei ir quando era novo. Já vi músicos talentosíssimos, com dedos capazes de pegar um instrumento e tirar o máximo deles. Já vi músicas hábeis, vibrantes, instigantes, dissonantes. Já vi telões espetaculares e outros nem tanto, mas cujas perfomances compensavam a ausência de imagens. No entanto, o que realmente se destacou no show do Roger Waters foi a intertextualidade vibrante de cada música entre si, dialogando com outras formas artísticas (o que seria uma ponte com a interdisciplinariedade), e a forma como elas levantam um muro de conceitos, revelando que todo homem se oculta atrás de uma parede de sonhos perdidos, de aspirações irrealizadas, de fraquezas mal-disfarçadas. O homem é o muro.

Neste momento, pausa para destacar as inúmeras alusões que uma ideia tão simples como “tijolo” pode conter. No show do “The Wall”, um tijolo pode não significar nada, mas muitos tijolos podem fazer um muro. Um tijolo pode ser tão concreto que parece indevassável, mas muitos tijolos são fracos como uma palha ao vento. Às vezes, a música diz que nós somos somente um tijolo no muro; em outras, ela apregoa que somos tão indestrutíveis quanto os tijolos de um muro. Todos os tijolos são iguais, mas cada um deles é diferente. Um conjunto de tijolos pode mudar tudo, pode consolidar uma situação existente; mas, um conjunto de tijolos também pode ser derrubado mais facilmente do que somente um tijolo (“together we stand; divided, we fall”).

Associando este conceito com as músicas, e estas com as imagens, o show acaba mostrando a fragilidade humana. Quando o muro é erguido, separando a plateia dos músicos, a sensação é de choque. Como podemos ver um show em que a banda se esconde, em que a música se protege? Mas logo o muro começa a romper. E, quando ele cai ao final, cada espectador sente que o muro que nos isola uns dos outros também desmoronou. O sentimento geral é que olhamos dentro do abismo e, no fundo, vimos um espelho negro. Mas conseguimos emergir, por que isto é da natureza humana.

O exército totalitário avança no muro

Mas até mesmo tijolos podem ter sentimentos. No caso de “The Wall”, tijolos possuem carne e também possuem mães. Ponto alto do show a interpretação de “Mother”, em que Roger Waters buscou um vídeo seu no passado, cantando a mesma música, e oscila passado e presente em imagens preto e branco. Grande sacada, passa toda a atmosfera de que nós somos ecos do próprio passado. Faz-me recordar uma frase de Martin Amis, que disse que, à medida que envelhecemos, nasce um continente novo no nosso interior, que seria o passado.

Outro grande momento do show é “Comfortably Numb”, que é, sem sombra de dúvida, uma das grandes letras da história do rock. Para mim, o trecho em que o cantor fala “my hands felt just like two baloons” é a descrição mais patética e desordenada de um estado de catatonia. Interessante que, somente assistindo o show, se entende que as duas vozes dialogando podem ser interpretadas como uma conversa entre fantasia e realidade, entre devaneio e verdade, entre vida e morte. Assisti várias filmagens e este detalhe me passou despercebido em todas, o que demonstra a minha tese de que este é um show para entender quando visto ao vivo. O próprio fato de uma das vozes ficar pairando, etérea, sobre a outra, separadas pelo muro, demonstra que o diálogo travado naquele segmento do show diz muito mais do que somente palavras.

A interpretação vigorosa de “Run Like Hell” também me surpreendeu, em especial pela violência quase catártica conferida à música, com Roger Waters disparando uma metralhadora na multidão (sons assustadoramente reais, algumas pessoas chegaram a se abaixar), o “porco voador” repleto de mensagens provocadoras deslizando sobre a plateia (não surpreende que uma vez ele tenha “fugido”, o porco viaja de um extremo ao outro do palco), as inscrições no muro gritando “you better RUN!”.

O professor e as crianças

Entre os vídeos postados no muro, um deles se destacou: a imagem da criança na escola que presencia o retorno do pai militar para casa, ao som da arrepiante “Bring the Boys Back Home” (não cantada, mas urrada com raiva juvenil por Roger Waters). É difícil captar emoção genuína com um olho eletrônico, mas foi o que aconteceu. O rosto da criança passa por uma rápida mutação, que começa na incredulidade ao ver o pai entrar na sala, passa para o espanto, modifica para a alegria e acaba no choro. Tudo em menos de 20 segundos, mas em uma eternidade de sentimentos. Quase todo mundo na plateia se emocionou.

Existem dezenas de momentos como este no show. No entanto, o que eu mais gostei foi que, inobstante o avanço tecnológico, inobstante a fartura de referências visuais, o que realmente prende a atenção das pessoas é a música e a história nela contida. História universal e, ao mesmo tempo, individual, de um homem fragmentado que junta os seus pedaços em um muro. Um homem que corrompe e distorce a natureza humana, mas sem perder a fragilidade. Algo que vale a pena ser contado, pois uma boa história nunca envelhece.

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3 Comentários

Arquivado em Música, Roger Waters, The Wall

3 Respostas para “Nós, os tijolos do Roger Waters

  1. Clarissa

    Nossa, nada como ser escritor! Fui nesse show, e so o que consegui fazer foi ficar embasbacada com o caminhao de pensamentos e sensacoes que acontecem ao mesmo tempo… e chorar claro, que no intervalo quando aparecem as fotos das pessoas que morreram na guerra como tijolinhos no muro e muito emocionante. Tudo nesse show e um espetaculo, pra repensar na vida (e na arte), que loucura!
    Valeu pelo comentario inspiradissimo maninho!
    Mother, did it need to be so high?

  2. Grande Gusta!!! Excelente texto!
    Só uma sensibilidade como a tua para pegar o “touro a unha”. Neste caso, Roger Waters pelo nariz.
    Parabéns pelo texto!

  3. Michele

    muito bonito. acho que eu deveria ter ido.

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