Suspensão momentânea da descrença

Entro na lotação, sento e, quando ergo os meus olhos, vejo o seguinte cartaz:

Primeiro pensamento, que chamo de PENSAMENTO ABSURDO: “como foi que treinaram um canguru para fazer um filme?”. O segundo pensamento vem a galope e, por isto, eu o chamo de PENSAMENTO CONCRETO: “Cadê o canguru?”. Em seguida, a razão começa a espalhar os seus tentáculos no PENSAMENTO CONSCIENTE: “Só um pouquinho! Cangurus não filmam e, se filmassem, não seriam colocados dentro de uma lotação!”. Por fim, a razão se espalha e toma conta do meu corpo, à medida que o tranquilizador PENSAMENTO NORMAL se estabelece: “Ah, é a propaganda de uma empresa que faz segurança dos meios de transporte coletivo! Capaz que iam colocar um canguru para filmar as pessoas, no mínimo isto deve ofender alguma norma ambiental”.

Em um curto espaço de tempo, trafeguei do absurdo para a racionalidade. No entanto, sempre permanece um rescaldo do percurso imaginativo, pois fiquei com a desagradável sensação de que, se escolheram um canguru para colocar na imagem e utilizaram o verbo “pode” expressando uma possibilidade ainda que pequena de ocorrência, algum motivo deve existir. O cartaz não pode representar uma mensagem anódina, uma vez que não existem símbolos inocentes (não acredito que voltei a citar Bakthin de forma indireta, pois ele afirma que não existem palavras inocentes, ou seja, todas as palavras são carregadas de ideologia e de uma dose de verdade. Desculpem, mas continuo sem acreditar que estou citando Bakthin. Se eu precisasse de algum sinal de que o fim do mundo se aproxima, neste momento as luzes de emergência estariam piscando).

Em todo o caso, este percurso mental é a mesma atitude que se toma quando se lê um livro. É um fenômeno que foi descrito por Samuel Taylor Coleridge, que chamou de “willing suspension of disbelief” (suspensão momentânea da descrença). Pode ser sintetizado da seguinte forma: se um escritor consegue colocar interesse humano e um semblante de verdade em uma história fantástica, o leitor vai suspender  os seus julgamentos pessoais sobre a implausibilidade da narrativa e se concentrar na verossimilhança interna do jogo fantástico proposto pelo escritor.

Eu acho este conceito apaixonante. Na minha acepção, ele significa dizer que a ficção pode ter um estatuto de verdade próprio, independente da realidade que vivenciamos. Além de ser uma imitação da vida, se a suspensão momentânea da descrença for bem sucedida, o autor pode criar um simulacro de vida dentro do ambiente mais improvável. A arte pode mudar o mundo e, para isto, o artista precisa somente ser fiel ao objeto artístico.

No meu universo, não parece tão improvável que cangurus possam filmar pessoas. Sentado na lotação, eu realmente acreditei no desenho contido na placa, eu realmente acreditei que não seria impossível ver um canguru me filmando. E a frase abaixo do cartaz, dizendo que eu “posso” estar sendo filmado, me deixou com a convicção de que, um dia, ao entrar na lotação, eu finalmente encontrarei o canguru filmmaker. Ainda não tive esta sorte, mas, enquanto manter a descrença em estado de suspensão, esta realidade ainda é possível, qualquer realidade é possível.

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Arquivado em Generalidades, Linguística, Mikhail Bakthin, Temas de crítica literária, Uncategorized

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