Eu tenho pena do Eike Batista

Cena urbana: no meu caminho para o escritório hoje, no meio dos carros, buzinas, fumaças e agitação, um mendigo estava placidamente deitado ao sol na confluência de vias que levam ao túnel da Conceição, o indefectível cachorro deitado nas proximidades espanando suas pulgas. Como Diógenes, o Cínico, ali devia estar um homem feliz. A própria ideia é um clichê absoluto, mas parecia ser um homem pobre e feliz. Detalhe interessante é que ele segurava um livro e estava lendo, curtindo o sol do início da manhã, o carrinho cheio de papel esquecido sobre o gramado.

Dentro da lotação, o motorista falava sobre o Eike Batista, o homem que tem 17 bilhões de reais, um dos seres humanos mais ricos do planeta. O motorista falava o quanto admirava a figura do Eike Batista e mencionou que o filho dele tinha atropelado e matado um ciclista dois dias atrás. Com uma certa inveja na voz, mencionou que a família deste ciclista morto iria ganhar um belo dinheiro de indenização. Na cabeça do motorista, um cara que ganha 17 bilhões de reais pode comprar qualquer coisa, até vida, e não seria espantoso que pagasse alguns milhões para livrar o filho da cadeia. Entretanto, não vou dizer para ele que, no belo Brasil, não é necessário muito dinheiro para um inquérito sumir ou ser arquivado, ou a mídia dizer que a culpa é do ciclista (sim, já disseram nos jornais de hoje), ou a família do morto silenciar rapidamente as suas preces e declarações. O motorista da lotação não sabe, mas não chegariam a algumas centenas de milhares de reais para tudo desaparecer – até a figura do ciclista. No final das contas, é bem barato.

Eu me recordo que, há questão de seis meses, li uma notícia na internet em que o filho do Eike, um cara de nome Thor Batista e de aparência nórdica, mencionava com orgulho que “nunca tinha aberto um livro na vida”. Lembro que, na época, esta declaração me chocou mais do que notícias de chacinas ou genocídios. Pensei que esta mácula na personalidade de um homem, de qualquer homem, era motivo de vergonha, e não de satisfação. Pensei que, se tal fato ocorresse comigo e eu nunca tivesse pego um livro, esconderia esta informação por toda a Eternidade. No entanto, a maior prova de que o cara nunca leu um livro é dizer tamanha bobagem em um veículo de mídia e achar que está agradando e, por este motivo, me apiedei do coitado. Sabe Deus como a sua vida deve ser chata, como os seus amigos devem lhe explicar piadas, como as comédias americanas devem ser difíceis para ele decodificar, como ele está condenado a ter belas mulheres, todos os artigos da sociedade de consumo, todos os rapapés de celebridades, e, ao mesmo tempo, não entender nada. Todo o dinheiro do mundo não compra a leitura de um único livro.

Talvez o fato dele não ler livros explique este acidente. Um homem que leu Dostoiévski, que saboreou Tchekhóv, que se perdeu nos labirintos de Borges, que desceu ao Inferno e subiu ao Paraíso com Dante, que atravessou o sertão com Guimarães Rosa, um homem deste quilate sabe o valor da vida. E sabe que a vida está além de qualquer componente monetário. E sabe que, depois de ter matado um homem, nada mais vai ser igual. E nem mesmo 17 bilhões de reais podem pagar uma respiração da pessoa morta.

Mas estes são os valores que a sociedade aprecia. E talvez este cara , o Thor Batista, sofra menos as consequências do seu ato por não ter lido: quem menos sabe, sofre menos. O que sei é que, neste exato momento, tenho muita pena do Eike Batista. Ganhou 17 BILHÕES de reais e não entendeu nada. Filipe II da Macedônia tinha conquistado dois países quando nasceu Alexandre; ainda assim, a primeira coisa que ele fez foi chamar Aristóteles para dar aulas para o seu filho. Ele sabia que Alexandre só seria alguém de valor se tivesse cultura e a História acabou confirmando esta sensação, atribuindo para Alexandre a alcunha de “O Grande”. Hoje, os pais ganham fortunas, enchem os filhos de mimos e comodismos e não mandam sequer eles lerem um livro. Um mísero livro.

Vale a pena ter uma quantidade enorme de dinheiro e não ter comprado um livro para o filho ler? Na minha opinião, não. Era melhor dar uma metralhadora para um chimpanzé do que legar uma fortuna para alguém tão perigoso. Este cara, o Eike, conseguiu ganhar 17 bilhões de reais e tem uma existência miserável, correndo atrás de mais e mais dinheiro, em um círculo vicioso que está condenado a não conseguir escapar. Tudo para o próprio filho servir de motivo de chacota secreta entre as mesmas pessoas que o idolatram, pois – podem me dizer o que quiserem – deve ser o inferno na Terra ficar próximo de alguém inculto e que se orgulha deste estado (eu imagino a pobre coitada que irá se casar com alguém assim e ser sentenciada a uma vida fútil, insossa e sem objetivos de crescimento pessoal). Pobre homem, pobre homem rico.

Retorno ao mendigo deitado na grama e lendo um livro. Ali está um homem de valor. Vale muito mais do que 17 bilhões. Seu nome nunca estará em nenhuma lista, talvez ele passe fome, frio ou outras necessidades, mas tem um livro na mão e, na pior das hipóteses, tem esperança. Na contabilidade da vida, vale muito mais ler um único livro do que não ler nenhum – independente da conta bancária.

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