Filme: “Apollo 18”

A capa do filme promete... mas, se são aranhas, como deixam pegadas?

Não consigo definir se gosto ou não destes pretensos “filmes-documentários” que andam frequentando os cinemas atualmente. Às vezes eles funcionam, mas, na maioria das vezes, eles querem tanto parecer verdade que soam falsos, piegas e simplórios. Mas, pergunto eu, a vida não é assim também, a história contada por um tolo, repleta de clichês e de burrices?  Pois é.

Estou falando deste assunto por que assisti o filme “Apollo 18“, um “filme-documentário” que conta a história da Apollo 18, pretensa/verdadeira missão lunar que teria ocorrido nos anos 70. As viagens lunares se encerraram com a Apollo 17 e, em tese, não teria existido uma Apollo 18. O filme fantasia a última missão das naves Apollo e o que teria sido encontrado na Lua, realizando suposições sobre o motivo pelo qual não existiram mais pousos neste satélite.

A história chega a ser chata de tão enfadonha: grupo de homens vai para um lugar e se depara com criaturas misteriosas (somente vislumbradas) que os matam de forma impiedosa. Se tivesse sido feito com um grupo de jovens em uma estrada deserta, teria a mesma estrutura e seria mais fiel ao clichê. “A Bruxa de Blair” é um exemplo de “filme-documentário” que funcionou, na minha opinião.

O que realmente me incomodou – e muito – foi a “forçada de barra” para transformar o filme em algo cult, tecendo uma nova conspiração escondida pelo governo. Para isto, colocaram imagens dos discursos de Kennedy completamente dissociadas do restante do filme e criaram um site na internet onde esta teoria estaria exposta. Tudo ficou parecendo artificial e bobo. Os caras tinham que ter coragem para assumir que estavam fazendo uma obra de ficção ou, então, não cortar o ritmo tentando impor um site na internet (no início e no fim, vai que o espectador não tenha entendido), assim como colocando este discurso do Kennedy e, de forma bizarra, tecendo considerações sobre o destino “oficial” atribuído a cada um dos mortos na missão.

Existe um sério problema de narrador: as câmeras tiveram as imagens arranjadas, foi incluído um discurso do presidente americano da época e existiu uma suposta “denúncia” sobre o destino oficial atribuído pelo governo americano para estas mortes. Muito bem, quem contou isto? Quem colocou denúncias e imagens contrastantes? Quem colocou o site com as supostas denúncias? Quem selecionou as pretensas imagens e as colocou em ordem? Bem, é um narrador que tentou se esconder de forma muito inábil e, como um mágico cujo coelho cai da manga no meio do truque, ficaram evidentes estas falhas narrativas. O pior é que, diante de um narrador tão desajeitado, o filme acabou não sendo nem uma obra de ficção e nem um documentário. Ficou na metade do caminho dos dois e conseguiu a proeza de fracassar por igual nos dois lados. O narrador acabou trazendo desconfiança para as duas vertentes do filme, pois não se pode dizer com certeza que as imagens não foram manipuladas e, ao mesmo tempo, não se pode considerar como somente ficção algo que se tentou dar uma enorme aparência de verdade.

Na Grécia antiga, Aristóteles já falava sobre isto. Na “Arte Poética”, ele fala que é dever do poeta criar a representação de vida, a imitação, e nunca a própria vida. Se a imitação tiver verossimilhança interna, ela terá o seu pequeno estatuto de verdade, trazendo confiança e certeza para o leitor/espectador. No entanto, quando falha a verossimilhança, a imitação de vida vira um pastiche, fracassando redondamente em um dos postulados de qualquer ato artístico.

Não posso dizer que o filme foi uma experiência de todo desagradável, mas o resultado final foi decepção. Poderia ter ficado bem melhor se existisse algum narrador visível estabelecendo o caráter de ficção da obra. No entanto, da forma com que foi construído o filme, ele tentou forçar a situação, transformar-se em um movimento da internet e dos meios de mídia, e fracassou. A sua pretensão foi muito maior do que conseguiu realizar, e fica o lembrete: quem tudo quer, nada consegue.

P.S. talvez irrelevante – adoro quando colocam som no meio do vácuo no espaço. Isto sim seria matéria de um filme de terror, mais do que as aranhas que moram em pedras e deixam pegadas.

 

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