Reflexões sobre “Antes da batalha”

Na semana passada, deixaram uma mensagem junto ao meu perfil no Facebook. O leitor – Humberto – traçou uma série de elogios a “O Homem Despedaçado”, mas chamou a minha atenção o interesse que ele possui pelo primeiro conto do livro, “À espera da batalha”. Com relação a este conto, após seguir o tradicional percurso de identificação de pessoas inventadas que figuram nas suas páginas (e mencionar outros que também poderiam estar na ilha) e destacar a figura do criador/autor e sua (ir)responsabilidade no ato de inventar, Humberto perguntou de qual batalha eu estava falando.

Nenhuma e todas, caro leitor. Na concepção do livro, eu afirmo que só existem dois momentos reais: aquele que antecede a batalha e aquele que a sucede. A batalha em si não existe: o que determina ela são os instantes imediatamente anteriores e os posteriores. Quando leio livros de História e das grandes batalhas do passado, observo que as batalhas são decididas antes de iniciarem e os gestos magnânimos ou desprezíveis acontecem depois. A batalha em si é uma confusão indeterminada, em que é difícil saber quem está ganhando ou perdendo, quem está em vantagem ou quem está acuado. Da mesma forma, os gestos heróicos e os comezinhos se dissipam no calor do momento, e todos os envolvidos agem praticamente por impulso de sobrevivência. Ou seja, sem reflexão, sem admiração, sem dúvidas. E os contos moram na dúvida, esta criação humana, não no instinto.

No entanto, existem outras interpretações possíveis. Aquela que eu mais gosto diz que a batalha é o meu livro de contos. Por este motivo, “Antes da batalha” e “Depois da batalha” estão separados do conjunto dos demais contos. Já me disseram que estes dois contos, como os pilares de um templo, também representam a vida e a morte. No primeiro conto, eu falo de um criador que fornece a vida de modo irresponsável, quase criminoso, subjugando as suas criações até ser desafiado por algo criado pelas próprias criaturas. Sair do ventre materno ou da caneta de um escritor também é lutar pela existência. No último conto, eu falo de um artista que retira a vida da sua criação, um ser misto Odin e Deus, um demiurgo punidor que, da mesma forma que uma Valquíria, leva os guerreiros para o descanso final após uma merecida celebração. Todo autor acaba o livro matando os personagens com o ponto final. São duas possibilidades de ver a vida e a morte.

Para terminar, menciono uma frase de William Faulkner, constante no livro “O som e a fúria” e que significa exatamente o que eu penso sobre batalhas:

Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhuma batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão de filósofos e néscios.

Obrigado pela leitura, Humberto.

Este quadro, parte da pintura "A batalha de Avaí" de Pedro Américo, mostra o instante imediatamente anterior ao tiro que o General Osório vai levar na boca. No meio desta confusão, em que não se distinguem amigos ou inimigos, o artista deixa a dúvida: Osório foi atingido por um amigo ou por um inimigo? O ângulo da pintura permite deixar a confusão, pois um soldado de Osório poderia atingi-lo sem querer, da mesma forma que o inimigo mirando na sua frente.

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4 Comentários

Arquivado em O Homem Despedaçado, Pedro Américo, William Faulkner

4 Respostas para “Reflexões sobre “Antes da batalha”

  1. Quando li esse conto, fiquei sob forte influência da epígrafe de Pirandello. Talvez o mais justo seja dizer “fiquei sob forte influência do nome de Pirandello”.

    Li há MUITO tempo (8, 9 anos?) O falecido Mattia Pascal e Seis personagens em busca de um autor e não consegui identificar se o trecho seria de um dos livros (se bem que não posso dizer que lembre muito deles, ainda que lembre de ter gostado MUITO deles).

    Ainda sou escritor hipotético; curto escrever pro blog para me forçar à escrita. Ou melhor, forçar-me a não procrastinar. Ainda que não lembre quase nada da peça de Pirandello, ela, aliada ao seu conto, me fizeram pensar muito nesses personagens que a gente cria e pelo qual somos responsáveis. Meu maior medo é que meus personagens esféricos e complexos (e que me fazem muita companhia) sejam transpostos para o papel de modo vazio. E que eu só os mate. De vergonha, pior ainda.

    [No primeiro parágrafo está escrito “À espera da batalha”, em vez de “Antes da batalha”. Não digo isso para corrigir — ainda que possa servir pra isso — mas por eu ter achado por um instante que você falaria de “À espera do inimigo”, que achei assustadoramente forte e bom: alguns amigos têm um modo mais direto de dizer isso, mas não é muito do meu feitio usar palavrões e dizer que algo é bom pra caralho.]

    • Arthur, interessante falares sobre isto, por que uma parte da inspiração veio também do Pirandello. A primeira vez em que li “O Falecido Mattia Pascal” – que dá a epígrafe do conto – foi em uma edição conjunta com “Seis Personagens à Procura de um Autor”, onde uma das questões incidentais discutidas é o que fazem os personagens quando o autor “falta” com a sua obrigação criativa.
      Também é um constante terror meu a ideia de estar contando a história de forma indigna em relação às expectativas dos personagens. Mas, pelo tanto que já conversei com escritores, este é um receio dos que se preocupam verdadeiramente com o fazer literário, uma noção de responsabilidade perante a história contada e a versão de vida nela sintetizada. Quem não se preocupa com isto não merece escrever. Ou seja, a sua preocupação é sinônimo de responsabilidade e, por conseguinte, sinônimo de boa escrita.
      Gostaste de “À espera do inimigo”? Já ouvi gente que falou muito bem… mas também existem pessoas que falaram muito mal, achando inverossímil uma cena homossexual naquele contexto (engraçado, mas sempre achei que o alegado homossexualismo – se é que existiu – era o menos importante naquele conto, e sim a relação quadrilátera que se estabelece entre dois homens e os fantasmas de duas mulheres em diferentes estágios de relacionamento, relação esta que considero quase um “comensalismo”, conceito que aprendi nas distantes aulas de Biologia). Como eu coloquei no final do livro, ele forma um tríptico com “Pequena parábola…” e “Convergência”, mas também se relaciona com “Antes da batalha” e “Depois da batalha”, pois são cenas que ocorreram dentro de diferentes lutas, irmanando homens distintos em torno de situações de vida e morte.
      Podemos até tentar uma ordem diferente: “Antes da batalha” mostra o momento antes do início; “Pequena parábola…” mostra como surgiu a estratégia do General; “À espera do inimigo” mostra o plano de guerra esboçado na parábola naufragando; “Convergência” mostra o sonho de vitória que o General da parábola articulou (e deu errado) e “Depois da batalha” mostra o encontro com Criador/Deus/Odin. É uma possibilidade MUITO interessante, e fico feliz de tu teres visto o que nem eu percebi. Como eu avisei, existem pedaços de outros livros dentro do meu, e eu também estou traçando possibilidades novas.

  2. Devo ter lido a mesma edição, os dois também vinham juntos.

    Eu gostei do “À espera do inimigo”, principalmente por sua dubiedade. Se for visto do ponto de vista “homossexual”, deve-se admitir que há muita sutileza. Uma sutileza semelhante à abordagem de Jennifer Egan em seu livro mais recente, ganhador do Pulitzer etc., ao narrar um capítulo em segunda pessoa pelo ponto de vista de certo personagem (Rob, para facilitar a busca).

    Para todos os efeitos, eu interpretei como algo semelhante ao que você explicou. Se fosse meramente “a realização do beijo gay como última coisa para um enrustido fazer antes de morrer”, não creio que teria achado tão forte.

    Confesso que a única coisa que me lembro de ter desanimado um pouco com o livro foi, justamente, aquele final que relaciona algumas coisas. Achei um pouco desnecessário, sei lá. Acho interessante que seja explicitado pelo autor que ele pensou nas ligações, mas, como leitor, prefiro chegar lá por conta própria. Não sei se me fiz entender.

    Abraço!

    • Arthur, legal que tu entendeste a minha intenção no conto, que foi mostrar muito mais do que o surgimento de uma relação homossexual no final da vida, mas sim como às vezes utilizamos pessoas para suprir as nossas carências emocionais… por mais estranhas as situações, por mais atípicas as pessoas.
      Quanto ao final, eu sabia que muitas pessoas teriam esta reação. Foi algo fartamente discutido com o editor. Confesso que fiquei dividido em iguais proporções sobre a colocação ou não daquele adendo. Aliás, no meu original, ele era uma introdução, e deve-se ao editor (Rodrigo Rosp) a brilhante ideia de colocar no final do livro, pois quem quisesse lê-lo já teria feito todo o percurso dos contos.
      Todas as vezes em que mostrei o livro sem o adendo, ele ficou fazendo falta. No entanto, quase todas as vezes em que o coloquei, ele foi criticado. Não existe fórmula em assuntos literários, e às vezes precisamos ir contra o lugar comum para testar as reações, para saber o que funciona ou não. Devo dizer que a minha referência foram as introduções feitas aos livros nas décadas de 10 e 20 do século passado, em especial as introduções feitas por Borges e por Cortázar, as quais sempre adorei e sempre acrescentavam na leitura. Mas, realmente, nos tempos atuais, este recurso é confundido com a voz do narrador, e é um pouco (MUITO) datado.

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