Livro: “As crônicas de gelo e fogo – Vol. 01: A guerra dos tronos”, de George R.R. Martin

Depois de tanto ouvir comentários elogiosos sobre a série “Crônicas de gelo e fogo”, escrita por George R.R. Martin, resolvi começar a ler este portento (nem me atrevo a calcular o número total de páginas para não desanimar) pelo volume 01, intitulado “A guerra dos tronos”.

Destaco que, além dos comentários elogiosos que ouvi vindo de pessoas acima de qualquer suspeita literária, também chamou a minha atenção a quantidade enorme de pessoas que vi carregando o livro pelas ruas ou lendo-o nos ônibus. Para fazer tanta gente ler um livro de vistosas 617 páginas, no mínimo eu devia esperar uma obra instigante.

Após o término da leitura, a minha sensação é de que todas estas pessoas me enganaram. Só posso ter sido vítima de alguma complexa trama internacional que pretendeu incutir a leitura deste livro na minha cabeça, trama esta que inclui dezenas de anônimos postados pelas ruas com exemplares do livro e chegou até a produção de uma série de TV pela HBO (a qual eu não vi).

Não percebi nada de especial no livro. É um romance estilo old school, enorme, caudaloso, repleto de personagens e subtramas a serem exploradas, mas somente isto. Balzac e Proust fizeram “romanções” deste tipo com muito mais qualidade e vivacidade. Cortázar fala que, se a literatura fosse uma luta de boxe, um conto ganha por nocaute e um romance ganha por pontos. No caso de “A guerra dos tronos”, a luta deve começar no ringue e prosseguir por toda a cidade com dois lutadores se estapeando e soqueando até muito depois dos limites da exaustão.

Contudo, a melhor definição foi firmada pela minha esposa, que disse que “As crônicas de gelo e fogo” constituem em um novo ramo literário, chamado “literatura obesa”. A história é realmente gordurosa, fibrosa, preenchendo os sentidos com muitas informações e pouco conteúdo, quase como um sanduíche do McDonald’s. Muito interessante esta definição, que mostra a obesidade se espalhando por todos os ramos sociais, incluindo as artes. Vou desenvolver mais este assunto no futuro.

Em alguns momentos, o livro ficou irritantemente mal-escrito, com um abuso impressionante de clichês, deuses ex-machina, descrições genéricas e a sensação de que o autor comprou um prato de espaguete e está espichando cada fiozinho para alimentar centenas de pessoas. Na minha opinião, quase todos os personagens são planos e óbvios (a menina revoltada, a orfã abusada, o princípe malvado, a rainha conspiradora, o rei bonachão, o nobre de consciência limpa), transformando o elenco que surge no livro em uma sucessão de arquétipos literários/cinematográficos. Os próprios conflitos surgidos no livro demandam soluções simplórias. Como a HBO deve ter constatado, este é o legítimo caso de livro que pode virar um filme melhor ainda se for condensado em algumas cenas.

Entretanto, continuo destacando a quantidade de pessoas que elogiaram o livro nas redes sociais, pessoas que eu considero excelentes leitores. Pensando melhor, grande parte dos elogios deve ter surgido do fato de que a HBO iniciou uma série tratando deste livro. Contudo, pensar assim é praticamente dizer que, se uma rede de televisão selecionou um livro para ser filmado, ele atingiu o Olimpo da Literatura. O fato que passa pela minha cabeça é uma sensação de “colonialismo literário”. Suspeito que estas pessoas que elogiaram o livro viram seus congêneres americanos elogiando e simplesmente transplantaram os elogios para o Brasil, gerando uma série de leitores interessados por um material que, acaso tivesse sido lançado aqui, estaria condenado aos fundos das prateleiras dos sebos. Vale a pena refletir sobre esta dúvida: o quanto ainda não somos dependentes da “metrópole”. Este percurso foi feito pelo Silviano Santiago, pelo Roberto Schwarz e por tantos outros, mas a discussão continua atual.

Mas nem tudo é desgraça. Se eu pudesse salientar alguma coisa no livro, destacaria que, em uma trama tão caudalosa e que atira para tantos lados, é impossível não se identificar com a história de parte das dezenas de personagens e desejar ver o que vai acontecer com eles. Eu me interessei pelo destino de alguns, em especial vilões. Minha mulher – que leu toda a série até o momento e está cheia de spoilers – disse que é melhor eu nem me interessar muito, pois a mortandade de personagens é grande. Talvez o mais surpreendente seja o anão, responsável pelas grandes tiradas cômicas do livro em razão da sua perspicácia, mas me deixa um pouco desconfortável o clichê de “personagem deficiente que troça da própria deficiência e utiliza a inteligência como maior arma”.

Também é importante deixar claro que, em um livro desta magnitude, talvez a proposta seja realmente ler, ler, ler, e se perder nas intrincadas curvas e labirintos da história. Talvez o grande objetivo do George R.R. Martin seja um romance que fale sobre TUDO, ao contrário do sonho de Flaubert, que era realizar um romance sobre nada. Também existe a possibilidade de todas as pessoas serem grandes clichês ambulantes e que todas as histórias já foram escritas, cabendo ao seres humanos realizar um grande revival de dramas requentados… pode ser.

Reconheço o mérito existente em uma história sem grandes pretensões além do desejo de pegar um novelo de tramas e deslindá-las devagar, ao longo de nove volumes. Entretanto, sei que é um livro que lerei desta vez e não terei grande interesse em retornar a lê-lo, ao mesmo tempo que sinto que lembrarei genericamente das tramas e dos personagens. Ao contrário do que imaginava, esta perspectiva não me entristece, pois sei que é um livro para ser consumido e que pouco acrescentará para a mninha biblioteca interna – além de gordura literária. Qualquer tipo de leitura vale a pena – até a insípida.

Um último detalhe. Chama a atenção que, apesar de ter visto um sem-número de pessoas comentando e lendo o livro um da série, não vi ninguém comentando ou lendo o volume 2 e os subsequentes. Duas possibilidades: ou a overdose de leitura do volume um exauriu os leitores ou o financiamento invisível das hordas que me convenceram a ler “A Guerra dos Tronos” acabou.

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7 Comentários

Arquivado em colonialismo literário, Crítica Literária, George R. R. Martin, Gustave Flaubert, Julio Cortázar, Literatura, resenha, Roberto Schwarz, Silviano Santiago, Temas de crítica literária

7 Respostas para “Livro: “As crônicas de gelo e fogo – Vol. 01: A guerra dos tronos”, de George R.R. Martin

  1. Um amigo me emprestou o volume há algum tempo. Por mais que tenha curtido o seriado da HBO, algo da empolgação de telespectador se esvaiu no leitor. São MUITAS páginas. E eu olho, do lado dele, um Franzen, um Murakami, um Lethem, não tão grossos mas que prometem ser muito melhores.

    Sensação semelhante de lavagem cerebral geral eu senti quando li (forço-me a admitir) os dois primeiros volumes da série Crepúsculo. Tenho dessas coisas de tentar ver o que os outros veem em determinados ícones da cultura pop. Às vezes é um martírio, às vezes uma boa diversão. Poucas vezes são leituras que quase me fazem bater a cabeça na parede em martírio por meu preconceito.

    Vou pensar mais um pouco se começo ou não esse livro. Não é como se meu amigo tivesse me dado um prazo pra devolução, ou algo assim…

  2. Entendo perfeitamente a tua opinião, Arthur! Talvez por isto tenha hesitado tanto antes de começar a ler… mas a estranha sensação de andar pela rua e ver todas as pessoas carregando o livro me deixou com a sensação de estar sendo excluído de um interessante movimento cultural. E admito que pensei “pô, se a HBO está adaptando, não pode ser coisa ruim!”. Fui torpemente enganado.
    Para a televisão funciona bem, mas como literatura é uma experiência sofrível. Vou dar um exemplo de tantos, para não parecer recalcado. Está na página 8:
    “Montando em seu enorme corcel de batalha negro, o cavaleiro elevava-se bem acima de Will e Gared, montados nos seus garranos de menores dimensões. Trajava botas negras de couro, calças negras de lã, luvas negras de pele de toupeira e uma cintilante cota de malha negra e flexível por cima de várias camadas de lã negra e couro fervido. […].”
    Sim, esta descrição está no livro, e, sim, em três linhas, existem SEIS vezes a palavra “negra”. Ou o Google Tradutor mexeu no livro ou o autor escreveu uma sequência de “black” quando poderia ter simplesmente dito. “Toda a roupa do cavaleiro era negra”. Estes vícios não aparecem na televisão, graças a Deus.
    Um abraço, e valeu pelo comentário
    Gustavo

  3. Júlio

    Esses livros são muito bons sim, mas cada estilo tem sua forma de ser apreciado. A crônicas de gelo e fogo são realmente lentas, não é um drama puro, é fantasia. A graça está em saborear Westeros, as músicas, as etnias, as histórias, as religiões, os costumes, as comidas, e etc. Tudo no livro é lento, acompanhamos o dia-a-dia das personagens e apreciamos tudo o que está sendo descrito ali, mesmo que de forma subjetiva, por mais que não tenham grandes tramas sendo armadas e desarmadas o tempo todo. A forma como Martin escreve muda o tempo todo no livro, dependendo da sensação que ele quer passar para o leitor. Muitas vezes ao encenar os Dothraki, por exemplo, a escrita se torna mais simplista e rígida trazendo o leitor para aquele clima mais “cruel” e “selvagem”. No exemplo do comentário acima o autor queria enfatizar que o personagem estava todo de negro, inclusive na cota de malha, luva e botas, era de homens da patrulha da noite que o autor se referia e suas vestimentas são muito significativas naquele universo. No próprio ensino fundamental me ensinaram que a repetição é um recurso literário. Os personagens “clichés” são mais aprofundados nos outros livro de forma que o leitor sequer sente o “cliché”. Não acho que esse termo seja apropriado para os personagens do livro exatamente por terem uma exploração psicológica muito grande, todos nós vistos de longe somos clichés. Quem conhece as obras sabe que Martin está longe de ser maniqueísta. Se você não vê graça em simplesmente saborear o universo do livro ou acha que a imposição de forças misteriosas é um deus ex machina então, meu amigo… fantasia não é para você. Volte para os seus dramas de desenvoltura imediata e historia objetiva.

    • Olá, Júlio, gostei bastante do teu comentário, que demonstra que leste (e muito bem) o livro. Mesmo que tenhas discordado de boa parte da minha postagem, acho interessante o debate. Em primeiro lugar, gostaria de deixar claro que esta foi a minha leitura do livro, e ela não é certa ou errada. Em segundo lugar, quando falo que o livro é lento, não se refere à sua história, mas sim à construção narrativa adotada pelo autor. Existem narrativas lentas que são feitas com maestria; assim, de cabeça, me lembro da sequencia da Montanha da Perdição feita pelo Frodo e pelo Sam, em “O Senhor dos Anéis”, quando a subida é lenta, dolorosa e extremamente psicológica. No caso de “A guerra dos tronos”, a cadência da leitura é cortada pela lentidão da história, e isto me incomodou um pouco, pois senti que o autor estava “enrolando” para criar suspense, e nunca é bom brincar com as percepções do leitor. Em terceiro lugar, nunca critiquei a construção criativa de Westeros, que é um mundo bem interessante, com características marcantes e bem-delineadas. Acho que o autor se fundou de forma excessiva na cultura anglo-americana, em especial pelo uso da heráldica, pela forma com que os seus personagens se comportam e pelo uso de partes “surrupiadas” de tal cultura (por exemplo, “Ser”, o pronome de tratamento usado em Westeros, é uma corruptela de “Sire”, forma antiga do “Sir”, título de nobreza hoje dado pela rainha da Inglaterra), mas não é algo que mude minha opinião sobre a história. Apesar de elogiares os personagens, eu os considero “clichês”, sim, levando-se “clichê” à sua ideia de que os personagens obedecem estereótipos (a princesa iludida pela riqueza, o capitão de guarda malvado e com segredos ambivalentes, o homem prático que se vê envolvido em uma trama política de consequências imprevisíveis, o eunuco sem poder sexual mas com o poder de convencer os outros), todos seguem um script que a gente viu em filmes de ação e enlatados de Hollywood. Aliás, uma das personagens mais interessantes e menos “clichê” do livro é Carolyn, que me parece ser a mais humana e volúvel, pois ela realiza atos impulsivos e é o verdadeiro motor das tragédias que sacodem a primeira parte da série. Outra coisa, em relação à repetição… eu sei que te ensinaram como recurso literário, mas é um recurso literário tosco. É uma forma preguiçosa do autor prender uma ideia na cabeça do leitor, repetindo-a até cansar, até que ele entenda, até que ele saiba o que está acontecendo, até que ele não tenha mais dúvidas sobre o assunto (viu como é chato fazer isto?). Sei que, como fã do livro, tu deves entender e perdoar todos os defeitos dele alegando “estilo” ou “recurso literário”, mas não, isto não é estilo e nem uma forma discursiva de abordar a trama. Existem maneiras mais eficazes de fixar a trama ou contar o que está acontecendo sem lançar mão de uma estratégia tão “enche-linguiça” quanto esta. A consequência é que, ao invés de trabalhar o texto para que cada frase ou ideia leve o assunto aos olhos do leitor, o George R. R. Martin repete a mesma ideia várias vezes, aumentando o texto de forma desnecessária e transformando a narrativa em algo por vezes enfadonho. Esta é uma estratégia mais velha do que “andar para a frente”: O Dumas fazia a mesma coisa, repetindo até cansar, mas ele fazia isto por que ganhava dinheiro por palavra, por linha de texto, e precisava enrolar o leitor ao máximo. Eu gosto da história, gosto da construção dos personagens (até clichês tem o seu valor), gosto do mundo, do cenário, do clima, mas não gosto de preguiça narrativa do autor e não gosto que ele me trate como uma pessoa que recém aprendeu a ler. E, apesar da tua explicação “metafísica” (com todo o respeito) de que o uso excessivo de “negro” nas frases que identificam um dos soldados da Muralha se justifica, firmando a imagem da sua vestimenta, entendo que esta é uma tática narrativa muito frágil. Melhor seria se o autor usasse as palavras para impor a presença do negro, escrever algo como “A cor negra das roupas ecoava nos olhos do homem. Ele se movia como uma sombra, levando o escurso consigo como se fosse um prisioneiro gemendo de dor e ondulando ao redor da armadura de trevas”. Puxa, é um exemplo, mas, se o cara pensar direito, pode fazer a coisa ficar bem bonita. Deus ex machina foi uma ideia criada na Grécia Antiga como forma irônica de afrontar os deuses, dizendo que eles se metiam nos dramas humanos para solucioná-los, sendo a saída cômoda e moralista da peça. Por isto que tão poucos autores utilizam em excesso o deus ex machina, sendo mais parcimoniosos no seu uso para que a narrativa crie verossimilhança. Não sou contra o seu uso, sou contra o seu uso EXCESSIVO, fica meio ridículo. Por fim, quanto à tua sugestão de que talvez eu deva retornar para “dramas de desenvoltura imediata e historia objetiva” e que “fantasia não é para mim”, só posso dizer que talvez tu até tenhas razão, mas agora é um pouco tarde, pois o meu livro me desmente. Mesmo não sendo uma obra completamente de fantasia, mais um realismo mágico, sou uma pessoa que gosta tanto do fantástico que não tenho medo de apontar as falhas e fracassos das histórias que gostei.
      Um abraço, e obrigado mesmo pelo comentário,
      Gustavo

      • Júlio

        De fato o Martin me agrada muito, provavelmente por uma falta de maturidade literária eu não ache tão enfadonha sua forma de escrita. Realmente ele poderia fazer a descrição do personagem de forma diferente (e melhor) mas não acho que o seu exemplo, apesar de ótimo, se encaixe com o clima do livro. O importante é que entendo e concordo que ele poderia fazer algo muito melhor mantendo a atmosfera que eu achei tão cativante.
        Também concordo que as “surrupiadas” dele são broxantes, não me lembro de exemplos agora mas algumas vezes o autor evoca termos que remetem à cultura da alta idade média ocidental nos fazendo relacionar mais à nossa realidade do que ao mundo fantástico criado, o que abala um pouco a imersão do livro. No entanto acho a escrachada inspiração na Inglaterra pós-romana, inclusive no uso da heráldica, muitíssima interessante, inclusive é um dos grandes motivos pelo qual esse livro me cativa. Talvez se não fosse tão próximo a essa cultura não me chamaria tanta atenção.
        Não vejo os personagens como clichês, estereotipados sim, clichês não. Repito, eles são mais complexos do que parecem e a maioria é pouco ou nada previsível. Igualmente como não vejo o uso de Deus ex machina em sua obra, pelo contrário, Martin em momento algum parece estar preocupado em solucionar alguma coisa, parece mesmo é querer aguçar mais os problemas e deixar as personagens reagirem de acordo com suas personalidades (que muitas vezes acabam por me surpreender), sem de modo algum priorizar ou privar qualquer coisa de sua infortuna fortuna.
        Martin definitivamente não é o novo Tolkien (talvez, em outra perspectiva e sendo otimista até seja) mas há de se reconhecer que foi um renovador do gênero. E penso que deve-se avalia-lo reconhecendo seu estilo e sua proposta, de forma que não consigo concordar de modo algum com a afirmação de que ele “enrola” o leitor. Em nenhum momento do livro me senti desda forma, apreciei cada parágrafo lido exatamente por que nada ali é uma encheção de linguiça, o prazer não se limita no desenvolvimento e conclusão da trama, em Martin seu aprofundamento é até mais importante.
        Concluindo, talvez você não aprecie esta forma de apreciação e a escrita do autor também não ajude muito mas deve-se reconhecer os pontos de genialidade da obra. Não estou criticando seu gosto, ninguém é obrigado a aturar uma escrita que lhe cause enfado e nem a se deleitar com a proposta de certo autor. Acontece que sendo fã da séria sua crítica acabou por me incomodar um pouco. =(
        Um abraço.

      • Júlio, não se sinta incomodado pelo fato da minha crítica não ter elogiado o livro ou saudado a sua inovação! Ter espírito crítico é isto: ver o certo e o errado e, mais do que tudo, saber se posicionar e expressar a sua opinião, assim como eu fiz, assim como tu fizeste.
        Gosto muito de literatura de fantasia; por muitos e muitos anos joguei RPG e fui mestre em dezenas de campanhas. Devorei quase todo livro que pude achar sobre este assunto. Por este motivo, as críticas que dirigi ao George Martin são críticas que faço em geral à literatura fantástica. Parece-me que os escritores gastam toda a sua energia criativa para bolar um mundo genial e, na hora de escrever a história, eles ficam um pouco desleixados. Tratam mal aquilo que contam, como se o auge da sua inovação criativa foi a invenção do próprio mundo e o resto seja irrelevante.
        (a propósito, até o surgimento do George Martin, eu achava o Terry Pratchett e – meu ídolo – Neil Gaiman os melhores escritores em matéria de literatura de fantasia)
        Mas concordo contigo, tens mais razão do que imaginas. Por muitos anos eu resmunguei pelos cantos que nenhum escritor fazia literatura de fantasia a sério e, justo quando um cara vem e escreve “As crônicas de gelo e fogo”, sou o primeiro a tocar pedras? Talvez a minha expectativa fosse exagerada. Confesso que muitas pessoas me disseram que era o melhor livro que elas já tinham lido, não poupando elogios, e isto também distorceu as minhas expectativas. Li resenhas nos jornais e na internet que só sabiam elogiar o livro e o seu autor, tratando-o como um inovador da prosa contemporânea. Por este motivo, quando li o livro, fiquei um pouco decepcionado, pois esperava algo sublime no pornto de vista da narrativa, mas era uma história, só isso, com defeitos, qualidades, transparências, fraquezas.
        E eu percebi que a leitura das outras pessoas não era propriamente uma “leitura”; elas tinham assistido à série de TV na HBO e este fato as fazia elogiar o livro. O bom e velho “vi na TV e dá para enrolar, não preciso mais ler o livro”. Entre as pessoas que conheço, posso dizer com segurança que duas ou três leram o livro de verdade, pois as outras fizeram críticas frágeis demais para quem verdadeiramente leu o livro. Vou passar para quatro pessoas que conheço agora, pois tu também leste o livro. 🙂
        Alguns detalhes rápidos: também gostei muito da heráldica e da história das famílias, em especial o da Casa Greyjoy, com o seu soturno “We do not sow”. As interpolações com a cultura anglo-americana passam um pouco de preguiça criativa, mas são eficientes para não se descolar demais da realidade.
        O Deus ex-machina a que me refiro são as soluções mágicas e as reviravoltas que surgem do nada. Existem vários, mas, em alguns momentos, o autor rompe com esta previsbilidade de forma até violenta, como quando o Stark morreu (ninguém o salvou na última hora). A literatura é feita de deus ex-machina, e não acho isto tão ruim quanto pareceu. Só complica um pouco quando o livro vira um rosário de reviravoltas e salvamentos na última hora. Em alguns momentos, isto me cansou, mas, ora bolas, como tu mesmo disseste, se eu quiser assistir a realidade, que vá assistir ao Jornal Nacional. 🙂
        Com relação aos personagens, acho eles um pouco estereotipados, sim. O anão – melhor personagem da série, aliás – é uma figura calcada no bobo da corte, aquele personagem que diz as maiores verdades para o rei e todo mundo leva na brincadeira. É um arquétipo clássico. Cada personagem tem o seu tipo de caráter e não percebo mudanças ou evolução dentro da história de cada um. Se considerarmos a classificação de V. Propp sobre os tipos de personagens, eu os percebo planos, e não esféricos. Planos são aqueles que nascem e morrem iguais dentro do livro; esféricos são aqueles que apresentam evolução e crescem ou modificam dentro do livro (caso da Carolyn, como já mencionei). Não é de todo ruim; eu inclusive prefiro os planos, são mais desafiadores. Contudo, a combinação de personagens estereotipados com o maniqueísmo deixa a trama mais fraca, pois ninguém é bom 100% do tempo, e ninguém é ruim em todas as suas atitudes. Volto a dizer: é a minha opinião, e uma opinião parcial, posto que ainda não terminei de ler toda a série. Devo dizer que, com a nossa conversa aqui, estou ficando curioso para retomar a minha leitura dos demais volumes.
        Um abraço, e valeu de novo pelo comentário

  4. Kelli Pedroso

    Eu não li a obra. Mas, meu pai leu todos os volumes e gostou.

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