Shampoo e terrorismo

Considerando-se o caráter do discurso e o seu poder de convencimento, poucos produtos são mais belicosos que os shampoos.

Basta um simples olhar para a prateleira do meu banheiro para perceber que estou em guerra. O primeiro tubo ostenta os dizeres: REPARAÇÃO INTENSA. Não basta ser capaz de reparar algo, mas também o faz de forma INTENSA (após uma aplicação de mencionado shampoo, o cabelo deve começar a se reparar e reconstruir). Ao lado dele, encontra-se outro tubo, onde está escrito RESTAURAÇÃO PROFUNDA, com os dizeres “para cabelos danificados”. Assustadora a ideia de cabelos tão danificados que precisam ser restaurados em um nível profundo, quase anímico. Passa uma sensação de que a pessoa foi queimada viva e o shampoo serve para reiniciar o crescimento de cabelos. No entanto, o melhor deles tem escrito na embalagem a expressão USO EXTREMO, sem maiores detalhes. Como homem, não entendo o significado de um shampoo que deve ser utilizado na forma extrema. Parece-me que a pessoa que o utiliza não possui nenhuma outra alternativa ou é um caso tão perdido que aquele shampoo é a última esperança para os seus cabelos.

Estou me detendo somente nos shampoos que se encontram na prateleira do banheiro. Se observarmos as prateleiras das lojas, fica mais evidente que os cabelos são inimigos, os shampoos são armas e a Humanidade está em guerra contra o topo da própria cabeça.

(Em algum outro momento, vou ser obrigado a analisar os tipos de cabelo descritos nas embalagens de shampoos e condicionadores – danificados, secos, lisos, necessitando reparos, quebradiços, coloridos, sem brilho – e falar das dificuldades enormes que possuo em sintetizar o estado em que estão os cabelos).

Quando olho os dizeres fortes das embalagens de shampoo, não consigo deixar de pensar em “A ordem do discurso”, do Michel Foucault. Se estivesse vivo, ele ia se finar rindo do teor nada discreto deste discurso, quase uma tática terrorista de convencimento do consumidor, e do poder utilizado para forçar um indivíduo ao corriqueiro ato de lavar os cabelos. Em especial por que Foucault não tinha cabelos, ou seja, seria o caso de um discurso utilizado com poder, mas sem nenhum resultado prático.

Será que as embalagens de shampoo convenceriam Foucault a utilizá-las?

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Arquivado em Generalidades, Michel Foucault

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