O quadro imaginário

O restaurante Marzana, local onde almoço quando estou em Porto Alegre, possui particularidades interessantes. A iniciar pela prateleira repleta de livros no fundo do restaurante, um chamariz para quem gosta de literatura e de livros (mas que se revela uma grande decepção quando nos aproximamos, pois percebemos que são livros comprados em algum “saldo”, constituindo-se de obras técnicas ou repetidas, demonstrando que o critério para a sua aquisição foi meramente estético, o que é uma pena).

Outra curiosidade é o acúmulo de objetos dependurados nas paredes, assim como quadros feitos com reportagens de revistas antigas, propagandas recortadas de jornais do passado e uma série impressionante de pinturas e expressões de uma arte que considero típica de cafés europeus (quadros ostentando a logomarca de produtos há muito desaparecidos, figuras enigmáticas esculpidas em bronze, placas de ruas em castelhano, tudo remetendo a um tempo em que tomar café devia ser uma expressão cultural). Além disso, espalhados pelas paredes, existem dezenas de quadros e pinturas, dos mais variados tamanhos, e, até onde posso ver, sem nenhum tema específico.

Suspeito que existe uma mensagem cifrada interconectando todos os livros, todos os quadros, todos os objetos decorativos, todas as reportagens, mas igualmente tenho a sensação de que decifrar esta mensagem é chegar no conceito de anima mundi de Jung, ou olhar dentro do Aleph, ou ter uma experiência misto de psicodelia e esquizofrenia. Mais fácil acreditar que é uma junção casual de fatores decorativos do que imaginar a mente perversa que tentou transmitir uma mensagem por meio de objetos tão díspares.

Anima mundi, de acordo com Jung

Na semana passada, enquanto estava esperando para pagar, meus olhos acabaram vagando pelas paredes e encontraram um quadro. Ele estava atrás da coluna decorada com dezenas de lápis de cor colados, algo que chama atenção de todos. Era um quadro pequeno, singelo, esquecido no meio da profusão de outras obras ostentadas nas paredes. Eu diria até que ele estava em um ponto pouco privilegiado, pois ficava próximo da porta, ou seja, as pessoas olhariam o quadro sempre de forma fugaz, ou chegando ou saindo do restaurante.

No quadro, três homens com vestimentas antigas, que associei à Inglaterra vitoriana, estavam sentados ao redor de uma mesa, enquanto outro homem estava de pé. Eles pareciam estar negociando um acordo ou um contrato, pois um livro estava no canto da mesa, um papel entre eles e a caneta de bico de pena se exibia no centro do quadro, demonstrando que algo seria assinado. No extremo direito da pintura, um pedestal mostrava o busto de mármore de alguém que imaginei ser romano ou grego.

Algo no semblante do homem sentado na mesa me fez lembrar da representação clássica de William Shakespeare. Outro me recordou vagamente Miguel de Cervantes. Quando fiz este reconhecimento visual, estremeci. O que os meus olhos estavam vendo era a representação idílica de um fato que jamais ocorreu. Era costume que Shakespeare pegasse obras literárias e adaptasse para as suas peças. Assim aconteceu com “Romeu e Julieta”, que se baseou em antigas histórias tais como “A Trágica História de Romeu e Julieta” (1562), de Arthur Brooke, e “Palácio do Prazer” (1582), de William Painter, ou o próprio “Hamlet”, baseado em uma obra chamada “Uma Tragédia Espanhola” (1590), de Thomas Kyd, hoje mais conhecida como “Ur-Hamlet”. Existe uma evidência frequentemente citada nas biografias de que Shakespeare estivesse planejando ou até mesmo tivesse rascunhado uma peça baseada em “Dom Quixote”, de Cervantes. Seria o encontro de dois cânones literários.

Quando vi este quadro, pensei na genialidade do artista, que tinha colocado Shakespeare e Cervantes em uma mesa, discutindo os termos da adaptação da obra para o teatro cercados por outras duas pessoas (na minha imaginação, eu insistia em ver o Luiz de Camões, mas não podia ser até por uma incongruência temporal). Logo me acomodei com a ideia de que os outros dois participantes do quadro seriam editores ou agentes, ou até mesmo advogados. O busto continuou sendo um mistério, mas estava disposto a procurar nas vidas dos dois cânones uma referência comum na filosofia ou na literatura da Antiguidade para encaixar a imagem.

Durante uma semana, procurei em vão mais referências sobre este quadro. Tentei todas as variações possíveis de busca na internet, começando por “Shakespeare e Cervantes” e terminando em “writers reunion”. Vi dezenas de quadros, mas não encontrava aquele que eu buscava.

Continuei almoçando no Marzana, olhando o quadro em busca de qualquer detalhe da autoria. Era encantador saber que uma pintura tão única, um momento da vida de dois cânones literários pinçado da imaginação de um artista, mantinha um lugar tão longe da visão dos curiosos e dos clientes. Parecia um mistério a própria existência daquele quadro e confesso que, em alguns momentos, pensei que talvez aquele fosse a versão original e única, a qual, após uma vida transitando em antiquários e galerias de arte empoeiradas, acabou sendo adquirida por alguém para efeitos somente decorativos, desconhecendo o seu real valor. A moldura antiga do quadro ajudava a alimentar a minha fantasia.

Este é o Restaurante Marzana. Ignorem as pessoas da foto, pois não sei quem são. Atrás do rapaz, está a coluna formada por lápis de cor. Atrás do ombro dele, à direita, preso na parede, está o quadro. Destaco a habilidade do quadro de se esconder da máquina fotográfica e manter o mistério.

Na sexta passada, eu atingi a iluminação. Olhando com maior atenção o quadro, concluí que o homem que eu achava parecido com o Luiz de Camões, na verdade, era Dom Pedro I. Procurando imagens de Dom Pedro I, encontrei reproduções quase idênticas. Suspeito que a reunião constante no quadro era alguma reunião pós-Independência do Brasil. A magia do quadro inteiro se desfez diante dos meus olhos. Tudo aquilo que eu tinha pensado, inclusive a genialidade do artista que conseguiu captar um momento único não-existente na História da Literatura, também se desvaneceu. Fiquei triste pela descoberta, mas acredito que, para as dezenas de clientes do restaurante, eu devo ser o único que se decepcionou por ver que o quadro imaginário era muito melhor que a realidade.

Meu único consolo é que o quadro imaginado persiste dentro de minha cabeça. Posso vê-lo quando quiser. Nunca será objeto de mostra artística, nunca será admirado ou comentado por críticos. O pintor não existe, a moldura pode ser qualquer uma, o quadro é tão imaginário quanto o encontro narrado nele. Mas nem por isto ele deixa de existir.

2 Comentários

Arquivado em Carl Gustav Jung, Generalidades, Pintura, Psicologia

2 Respostas para “O quadro imaginário

  1. Kelli Pedroso

    Fiquei fascinada com a tua história. Posso imaginar a tua reação ao se deparar com os livros técnicos…rs.

    • Hahaha, a minha reação foi do mais completo desânimo. Uma vez que o arquiteto pretendia dar uma feição cultural e sóbria para o ambiente, não custava nada ter escolhido livros de ficção (ou, pelo menos, custava a mesma coisa). Encher as prateleiras de livros genéricos e das mais diferentes áreas do conhecimento é só preencher espaço e posar de culto. É um engodo, infelizmente. Mas não canso de achar divertido.

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