Livro: “A cruzada das crianças / Vidas Imaginárias”, de Marcel Schwob

Existem livros que, quando chegam ao final, deixam uma forte marca na memória. Não entendo muito de vinhos, mas existem livros que perduram por longo tempo na recordação do leitor, livros tão fortes que ultrapassam as suas barreiras físicas e se encravam no espírito alheio como se fossem ferro em brasa.

O livro inicia com o conto “A cruzada das crianças”,  genial mosaico literário feito por uma pluralidade de vozes entrecortadas, todas contando a história das crianças que saíram de casa na França e na Alemanha com a pretensão de retomarem Jerusalém. Nos tempos atuais, este expediente de contar a mesma história em diferentes perspectivas é quase um lugar comum. No entanto, acredito que, quando Schwob escreveu o conto, esta era uma estrutura ainda inovadora. Nem sempre tal técnica funciona. Nos tempos atuais, quando leio contos ou livros que utilizam esta forma de contar a história, parece forçado, mais um vôo de exibição de técnica literária do que uma submissão diante da história a ser contada. Não raro penso que a história ficaria bem melhor se tivesse sido utilizada outra estrutura. Por tal motivo, chamou a minha atenção que a única forma que Marcel Schwob tinha de contar a história da cruzada das crianças era através de uma estrutura multifacetada, pois nenhum dos lados possui razão e todos possuem justificativas para as suas atitudes. Por meio da utilização desta técnica, o escritor francês conseguiu descrever os prós e contras de cada um dos lados, sem juízos de valor, e deixar para o leitor decidir. Detalhe significativo é que boa parte da história do conto se constrói no espaço não-escrito, ou seja, nos interstícios entre uma narrativa e outra.

Não é à toa que já li este conto em várias antologias e coletâneas, pois é um exemplo de construção de personagens, de descrição de cenários, de exposição de angústias humanas. Os trechos dedicados aos dois papas são empolgantes: revelam toda a empáfia, o orgulho, a soberba dos homens que se achavam donos da fé enquanto as crianças marchavam. Os pedidos de intercessão divina sobre as crianças – e a própria construção de um memorial pós-morte – chegam a soar irônicos e dissonantes dos próprios xingões destinados a elas.

(Falando em pluralidade de vozes, só consigo pensar no Bakthin e no seu “Problemas da Poética de Dostoiévski”. Não sei se Marcel Schwob leu Dostoiévski, mas pegou muito bem o espírito, em especial as relações dialógicas e o conceito de romance polifônico).

Com relação ao “Vidas Imaginárias”, outra leitura de excelente qualidade. Borges sempre admitiu que ele foi a sua maior influência para escrever “História universal da infâmia”, mas, lendo a obra em que ele se baseou, posso ver que Marcelo Schwob foi ainda mais vibrante e direto nos seus propósitos do que Jorge Luis Borges. Desde o prefácio, em que o autor francês detecta os problemas recorrentes das biografias existentes até então, já se percebe a força dos seus argumentos, uma vez que ele ataca Plutarco e Suetônio, dizendo que a verdadeira biografia deveria se deter não somente naquilo que destaca os homens, mas sim nas manias e características pessoais que os diferenciam.

Tendo esta ideia como norte, Marcel Schwob traça biografias de personagens esquecidos pelos livros de História, mas que tiveram participação decisiva nos eventos mundiais. Assim, ele nos apresenta Empédocles, Deus presumido, homem com poderes divinos que, de certa forma, antecedeu o advento dos profetas bíblicos (e faz refletir sobre quantos profetas já existiram e cuja história não foi divulgada). Fala de Crates, um cínico, que abdicou de todas as posses materiais para viver nas ruas como um cão. Retira das brumas da história Clódia, matrona impudica, que utilizava o sexo como moeda de troca em todas as suas relações. Dá um final alternativo para Petrônio, romancista, autor do Satyricon, que deixou de morrer por ordem de Nero na versão de Schwob e passou a trafegar como um indigente pelas cidades romanas, vivendo novas possibilidades muito mais ricas do que as experimentadas na sua vida de nobreza. Apresenta Cecco Angiolieri, poeta rancoroso, que competia com Dante e passou uma vida inteira imersa em raiva contra outras pessoas, sem saber que a maior raiva que possuía era contra si próprio. Ressuscita dos mortos a história de Nicolas Loyseleur, juiz, o qual julgou Joanna D’Arc e manobrou-a de tal forma que causou a sua morte. Destaque especial para a história de Paolo Uccello, contemporâneo de Donatello, artista consumido pela arte, que desejava “transmudar todas as linhas num só aspecto ideal”.

Em todas as biografias, é possível reconhecer o traço humano de cada personagem deixado de lado pela História. A prosa de Marcel Schwob é agradável, constituindo-se de uma riqueza lexical única, em especial pela utilização das imagens, das paráfrases e das metonímias. É possível entender por que este livro foi tão admirado, pois a imaginação do autor francês para suprir as lacunas deixadas pelas narrativas históricas, associadas ao seu evidente conhecimento enciclopédico, tornam a leitura fluida e distante de qualquer ranço moralizante.

Não existe nada como ir até o passado para descobrir o novo. E Marcel Schwob vale inteiramente a descoberta.

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