Outra possibilidade em “Um mundo de moscas”

Desde antes mesmo de lançar “O Homem Despedaçado”, as poucas pessoas que tinham lido o conto “Um mundo de moscas” me relatavam ter encontrado outras referências literárias às moscas como analogia do despedaçamento humano. Eu próprio achei algumas menções espalhadas por outros livros e em outras obras, inclusive pinturas e esculturas. Foi um pouco perturbador perceber que a minha ideia não era tão original e, ao mesmo tempo, foi espantoso constatar a quantidade de pessoas que, no decorrer das eras, teve a mesma obsessão por moscas.

Após lançar o livro, tais descobertas se multiplicaram. Outros leitores me informaram que tinham encontrado referências filosóficas e detalhes biográficos que confirmariam a teoria de Anton Lopez. Eu prometi que, com o tempo, iria colocar estas pesquisas e descobertas no blog.

Começarei por uma descoberta recente. Lendo o prólogo de “Vidas imaginárias”, de Marcel Schwob (logo será objeto de postagem neste blog), deparei-me com esta narrativa:

“Ele [o biógrafo John Aubrey] nada nos diz sobre a Oceana de James Harrington, mas conta que o autor ‘A.D. 1660 foi mandado como prisioneiro à Torre, onde o mantiveram, e em seguida a Portsey Castle. Sua estada nestas prisões (sendo ele um cavalheiro de espírito elevado e cabeça quente) foi a causa procatártica de seu delírio ou loucura, a qual não foi furiosa – já que conversava de modo bastante razoável e era uma companhia bem agradável; mas acometeu-o a fantasia de que seu suor se transformava em moscas, às vezes em abelhas, ad cetera sobrius; e mandou construir uma casinha versátil de madeira no jardim do sr. Hart (defronte ao St. James’s Park) para fazer a experiência. Voltava-a para o sol e sentava-se diante dela; depois mandava trazer suas caudas de raposa para espantar e massacrar todas as moscas e abelhas que nela se encontrassem; em seguida fechava os caixilhos. Ora, ele só realizava esta experiência na estação quente, de modo que algumas moscas se dissimulavam nas frestas e dobras dos drapejados. Ao cabo de um quarto de hora, talvez, o calor enxotava uma mosca, duas, ou mais para fora da toca. Ele então exclamava: ‘Não estão vendo que, claramente, elas saem de mim?'”

(SCHWOB, Marcel. A cruzada das crianças / Vidas imaginárias. São Paulo: Hedra, 2011, p. 52).

Neste trecho, Marcel Schwob trata de como as biografias podem ser enriquecidas quando mencionam os detalhes e manias do biografado (no entanto, ele critica John Aubrey justamente por se deter somente neste aspecto do biografado, esquecendo as suas realizações maiores). Interessante que ele tenha escolhido esta parte da vida de Harrington para destacar o estilo de Aubrey. Entre tantos outros exemplos, Schwob acabou escolhendo aquele que pareceu o mais estranho e díspare: a história de um homem que acreditava que moscas nasciam do seu corpo. No caso, o filósofo James Harrington, autor de Oceana, uma sociedade utópica criada para fortalecer a governança de Cromwell.

Não pude deixar de notar que a loucura de James Harrington se confunde com a de Anton Lopez. Ambos acreditavam que moscas saíam do seu corpo, e não pousavam sobre ele. O esforço que Aubrey faz para destacar a loucura do biografado, desde a sua gênese na prisão até a construção de uma casa para servir de palco para suas experimentações, situa Harrington como uma pessoa mentalmente desequilibrada. No entanto, um detalhe se destaca: “ele conversava de modo bastante razoável e era uma companhia bem agradável”. Não parece ser uma postura típica de alguém enlouquecido. A própria palavra “razoável” transmite desconforto, pois, quem possui razão, não pode estar louco, posto que loucura seria a falta de razoabilidade.

Eu imagino o horror de James Harrington, sentado dentro de um quente caixote de madeira, vendo as gotas de suor descendo pelo seu corpo nu. De repente, a delicada estrutura da gota de suor começa a adquirir diminutas pernas líquidas, uma cabecinha se forma, centenas de olhos microscópicos aparecem naquilo que era uma pequena, inocente gota, até ganhar asas e sair voando, um pedaço de Harrington prestes a voejar sobre as imundícies de Londres. Pior do que essa visão é saber que irá contar a história e as pessoas, incrédulas, encontrarão dezenas de explicações lógicas para o fato vivenciado, quando a verdade – ah, a verdade, esta palavra que todo mundo busca e ninguém quer encontrar! – será desacreditada.

Pobre Harrington: aposto que, nesta hora, ele se arrependeu amargamente de ter atingido notoriedade construindo uma utopia, ou seja, algo que não existe. Todas as suas experiências, por mais empíricas e verdadeiras que fossem, seriam para sempre vistas sob a lente opaca da descrença. Como acreditar em alguém que cria utopias? Como acreditar em alguém que vê moscas saindo do seu próprio corpo, ao invés de pousar sobre ele?

Uma das minhas únicas ressalvas a Charles Darwin é essa. Desde “A Origem das Espécies”, deixaram de existir os intrépidos pesquisadores que pensavam no impensável, utilizando o próprio corpo como seu experimento e fonte de pesquisa. Desde Darwin e suas teorias evolucionistas, o mundo ficou bem mais chato. Acho que nunca terei a invulgar chance de ver alguém se prendendo no meio do Parque Farroupilha e depois vindo a público defender que moscas nasceram do seu suor. Até os loucos possuem pruridos imaginativos ao pensar em uma loucura tão grande.

Ser louco, tudo bem. Mas, louco sem critério, nunca.

James Harrington, predecessor de Anton Lopez, pobre filósofo atormentado por moscas

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Arquivado em John Harrington, Literatura, Marcel Schwob, O Homem Despedaçado

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