Um estouro realmente pode ser um estouro

É uma experiência semântica interessante viajar pelo interior do Rio Grande do Sul. As palavras possuem outros significados, termos usados em um contexto em Porto Alegre são utilizados de forma completamente diferente em outros lugares e, não raro, dificuldades comunicacionais acabam se apresentando.

Seguindo esta diversidade linguística (para lembrar de um termo das minhas aulas de Linguística, das quais não sinto saudade alguma, posto que respeito o Saussure e o Bakthin mas continuo com medo deles), não deixa de ser memorável quando se descobre que uma palavra pode possuir o significado literal em outro local do Estado – mais literal do que o seu próprio uso cotidiano.

Eu estava em Cachoeira do Sul. Tinha passado do meio dia e entrei em um bar para almoçar. A placa, com cores e palmeiras que remetiam ao Havaí (não sei o motivo), afirmava em letras garrafais “FAÇA AQUI UMA FESTA DO ESTOURO!”. Embaixo, acrescentava que podia ser festa de formatura, casamento, baile de debutante, em suma, qualquer festa. Em dias normais, eu não entraria neste bar (sei lá, podem considerar mania, mas não gosto de placas dissociativas do conceito de comida na porta de estabelecimentos cuja principal razão de ser é justamente vender comida), mas não via nenhum lugar próximo e imaginei que ia ser uma experiência rápida: comer e ir embora.

Logo que entrei, a garçonete perguntou se eu estava na FESTA DO ESTOURO. Disse que não. Juro que não entendi a sua empolgação, pois me pareceu muito entusiasmo por um único evento. Pelo o que entendi, uma festa de aniversário estava acontecendo no andar acima.

A balbúrdia era normal para locais pequenos cheios de pessoas. Eu já tinha até esquecido do detalhe da FESTA DO ESTOURO quando um barulho inimaginável preencheu o bar inteiro. Eram dezenas de estouros, pequenos, médios, grandes, alguns gigantescos, de tremer os copos, mas todos anormais. É evidente que levei um enorme susto, mas logo descobri o motivo da eclosão da Terceira Guerra Mundial: quem estava na mencionada FESTA DO ESTOURO ganhava bombinhas e bombas para tocar no chão ou implodir em homenagem ao aniversariante. Não sei como a ideia de jerico passou pela Vigilância Sanitária ou por algum órgão burocrático competente (não parece muito saudável ou aconselhável explodir itens dentro de um bar), mas o fato é que este tipo de festa existe e me pegou de surpresa.

Depois do momento bombástico, gastei alguns minutos pensando a respeito de como tinha caído naquela armadilha, em tudo semelhante a uma pegadinha, apesar da ausência de câmeras. Cheguei à conclusão de que fora alertado desde o início sobre o que ia acontecer: afinal, era uma festa DO estouro, e não DE estouro. Em última análise, uma festa feita em homenagem ao Deus Estouro. Quando li, imaginei que era algum tipo de gíria: na minha concepção, festa do estouro seria uma grande festa. Giriazinha antiga, típica de quem parou nos anos 70, mas ainda eficaz. No entanto, no caso deste bar, festa do estouro é a celebração em que se estouram coisas. Simples assim, direto assim. E, apesar da clareza do signo, do significado e do significante, fui enganado.

Definitivamente, eu devia ter estudado mais Saussure, mais Bakthin. Mas acredito que nem eles teriam previsto esta possibilidade: estouro significando estouro.

Cachoeira do Sul está abrindo um precedente perigoso. Penso em como seria a vida em um lugar onde os signos significam exatamente o seu sentido literal. Seria um lugar sem metáforas, e a metáfora é a graxa em torno do qual se processa a civilização.

Em todo o caso, fica o aviso. Ocasionais viajantes, tomem muito cuidado em Cachoeira do Sul, pois lá as pessoas dizem exatamente o que desejam dizer.

Momento histórico para mim e para o Saussure, que aparece neste blog pela primeira e (talvez) última vez. Este quadro é famoso e representa a teoria do signo segundo Ferdinand de Saussure. No caso de ESTOURO, em Cachoeira do Sul tal palavra possui significado literal ao som e ao seu conceito intrínseco.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Ferdinand de Saussure, Generalidades, Linguística

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s