Livro: “Ficção de Polpa – volume 2”, organizado pro Samir Machado de Machado

A capa remete diretamente ao clima pulp dos contos

O problema de quase toda coletânea de contos é a irregularidade. O leitor devora o conto de um autor, adapta-se ao seu estilo, encanta-se com os cacoetes linguísticos (todos temos), embrenha-se no raciocínio construtivo que gerou o conto… e a história acaba e ele precisa começar tudo de novo com o próximo autor. Às vezes cansa este movimento irregular, esta sensação de onda. Em outras, pode dar um efeito de curiosidade: se o conto lido estava tão bom, como será que o próximo autor irá se adaptar ao tema proposto pela coletânea?

No “Ficção de Polpa – vol. 2”, a sensação de “o que vem a seguir?” suplanta a irregularidade dos contos. Aliás, foi um dos primeiros casos de coletânea que já li em que, ao final, SAUDEI justamente a irregularidade dos contos, a diversidade dos temas e a habilidade dos autores. A maneira utilizada para tratar do assunto proposto – as possibilidades eram ficção científica, contos fantásticos ou histórias de horror, ou seja, um leque bem amplo – fez com que a irregularidade virasse o principal destaque positivo. A leitura foi praticamente uma montanha-russa, oscilando momentos ágeis com instantes de reflexão. Alguns contos eu não achei tão instigantes como outros, mas forneciam a estrutura para que outras histórias se destacassem ainda mais. Mesmo não tendo gostado de alguns, entendi que eles se encaixaram na proposta e, se eu não gostei, foi por que a minha expectativa estava alterada pelo conto imediatamente anterior.

No entanto, senti uma clara distinção entre os autores escolhidos para figurar na coletânea: alguns eram escritores que utilizavam a palavra para contar a história e outros eram profissionais que trabalhavam as histórias sem atentar muito para o manejo linguístico. Enquanto os primeiros teciam histórias repletas de significados ocultos, os demais contavam histórias criativas, porém de significado único. São duas maneiras de pensar a literatura. Sempre imaginei que seriam excludentes, mas espantou constatar o quanto são complementares. Tudo dependeria da importância que o autor concede para a palavra.

Importante realçar que, como escritores, somos ensinados a pensar que cada palavra tem um lugar único dentro da história e, se a palavra não for efetiva, é por que outra deveria estar naquele trecho. Oportuno lembrar a frase de Nathaniel Hawthorne, “easy reading is damn hard writing”. Contudo, também existe um outro tipo de história na qual não se observa tanto a utilização exata das palavras, mas o objetivo principal que ela visa transmitir. Neste aspecto, foi um aprendizado importante sobre a validade das histórias em relação às palavras que as constituem.

É complicado destacar contos, por que as exclusões se tornam injustificáveis. No entanto, alguns merecem realce. “Braços longos para os adeuses”, do Juarez Guedes Cruz, é um primor. Eu já disse mais de cem vezes que, algum dia, quando crescer, quero escrever com a mesma habilidade que o Juarez. O problema é que a habilidade dele está cada vez maior. O conto nem se destaca pela história, mas pelo mundo que criou, pelas possibilidades, pela delicadeza com que aborda o tema de um amor impossível. A menção à Shakespeare na história não é ocasional: o timing da história não é o antes do amor ou o depois, mas sim o momento da decisão, da melhor forma do bardo inglês (que se destaca por colocar o centro da história na dúvida, e nunca na resolução do problema). Da mesma maneira, destaque positivo para “Sala de espera”, do Rodrigo Rosp, um conto simples, quase sem pretensões, mas que possui uma reflexão poderosa sobre as maravilhas que acontecem diante dos nossos olhos enquanto ficamos sonhando com a vida comum das celebridades. “On/off”, do Antônio Xerxenesky, também espantou, com uma história envolvente e que, quando chega ao seu final, podendo escolher entre múltiplas possibilidades de conclusão, o narrador decide não terminar o conto e deixar esta opção para o leitor. Não sei se isto existe em outros lugares da Literatura, porém admito que é uma opção arriscada: se a relação do autor com o leitor não está bem formada, a ausência de final pode ser uma grande frustação. Para mim, o jogo funcionou, os finais que imaginei são melhores do que a limitação de um único encerramento a cargo do autor.  Da mesma forma, para ficar nos escritores que conheço, gostei muito de “Emet”, conto do Rafael Bán Jacobsen, que faz uma releitura elegante da história do Golem. Impressionante como o Rafael consegue escrever com fluência, concisão e beleza, ainda mais quando a Língua Portuguesa é usada para descrever cenários e sensações de forma tão segura e límpida. Seu domínio da língua o aproxima – heresias à parte – de um Machado de Assis. Se trabalhasse mais a ironia e o duplo sentido (talvez usando um narrador intruso), suas histórias se tornariam lendárias.

Entre os escritores que eu não conhecia, várias surpresas agradáveis. “Olhos vazios”, da Luciana Thomé, me fez fechar o livro e ficar algumas horas refletindo. História poderosa e sensível, daquele tipo que, se vou descrever, acabarei estragando, pois cada detalhe é significativo. O mesmo pode ser dito de “Visitas”, do Samir Machado de Machado. Toda criança já se sentiu daquela forma: excluída, sozinha, descartável. Transformar estes sentimentos infantis em um conto é memorável, ainda mais quando a transposição é exata e sem melodramas excessivos. “Traz outro amigo também”, do Yves Robert, é outro dos grandes destaques do livro. A premissa é genial: um detetive é contratado para achar o amigo imaginário de alguém, perdido em algum lugar da sua infância. A forma encontrada para realizar a investigação é brilhante. A história prende, os personagens são bem-construídos e o leitor acaba se envolvendo. Por fim, destaco também o nonsense real de “Ressaca”, do Silvio Pilau, contando a aventura de um homem que, em estado de embriaguez, é aproveitado sexualmente por uma habitante do futuro. As implicações são inesperadas e surpreendem pelo realismo. Acabei o conto dando risada, mas com o desconforto de que aquela poderia ser uma situação real.

No saldo final da coletânea de contos, é um livro que vale a pena ser lido. Não possui grandes vôos narrativos ou inovações descritivas, mas a originalidade da sua proposta – escrever pulp fiction em épocas de comunicação em massa – é inegável. Nem toda literatura nasce com pretensão de ser eterna. É delicioso ler escritores se divertindo com as suas propostas e escrevendo histórias com o propósito único de entreter o leitor. No final das contas, é o que importa: passar um agradável tempo se distraindo com histórias criativas. Era isto que os contadores de histórias faziam na época das cavernas, e é algo que faz muita falta hoje, esta possibilidade de se maravilhar com tramas urdidas em torno de palavras.

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