Sem parar

Quinze dias atrás, pela primeira vez eu fui apresentado ao meu coração.

Não que ele tenha sido extirpado do meu peito em um arremedo de ritual asteca, ou qualquer outra forma de violência que implicasse em uma separação dele do corpo para o qual dá vida (o meu). Eu fui apresentado à distância, através de um vídeo. A câmera flagrou o coração no auge do seu funcionamento, mas até esta invasão súbita na sua intimidade foi oculta, quase como se houvesse o temor de ser detectado e o coração parasse por um milionésimo de segundo de surpresa, como se estivesse em uma pegadinha.

Foi uma experiência singular. Ali estava o órgão que me permite viver, imerso em uma cavidade escura, dançando enquanto o sangue entra e sai, distribuindo o líquido da vida através de bombadas seguras, decisivas.

As enfermeiras do Instituto de Cardiologia  não entenderam o motivo do meu fascínio. Elas diziam; “Mas é só um coração…”. E eu não conseguia explicar o meu sentimento: “Mas olhem que coisa mágica! Ele está batendo, batendo, batendo no minuto que eu falo, na hora seguinte, no dia todo, enquanto eu durmo,  enquanto eu trabalho, e vai continuar batendo no mês inteiro, no decorrer do ano, até o final da minha vida!” Se isso não é magia pura, não sei mais o que pode ser.

Hoje o coração se tornou um dos termos mais batidos que se pode utilizar, para não dizer um clichê absoluto. É extremamente arriscado usar a palavra “coração” em qualquer coisa que se escreva, pois está carregado de significados derivados de um uso tão extremo. Não sei a partir de qual momento o coração virou algo meloso, romântico, mas suspeito que tem a ver com a imprescindibilidade da sua existência, o fato dele ser muito importante para a vida (quando alguém mora no nosso coração, no fundo esta pessoa tem o poder de vida e morte sobre o corpo). Mas existe ainda um pouco de mistério, pois o coração possui segredos no seu batimento infinito enquanto dura a vida, e o fato dele ser identificado com o amor também é representativo da importância do sentimento.

Da mesma forma, a imagem do coração já foi muito desgastada pela utilização contínua e implacável (quase criminosa) durante muitos anos. Chega a ser irritante colocar a palavra “coração” no Google e ver a quantidade de interpretações estilizadas, comuns e rasteiras que surgem como resultado.

Mas a magia de um coração batendo persiste. Impressiona saber a fidelidade deste órgão: faça chuva ou sol, esteja de bom ou mau humor, ele continua batendo. Se você o tratar mal, ou ser descuidado com o seu corpo, ele não para. São irrelevantes os pensamentos políticos, econômicos ou opiniões de qualquer pessoa, pois o coração não trai, não deixa de bater para manifestar a sua inconformidade, não faz greve. Seja a pessoa um Hitler ou uma Madre Teresa de Calcutá, o coração vai bater igual. Semper fidelis.

E o mais fantástico de tudo é que basta um errinho, um só, no espaço longo de uma vida repleta de batidas por minuto, para o sistema todo entrar em colapso. Um errinho. Um deslize, uma batida fora do ritmo, uma pausa inesperada, e acaba tudo. A impossibilidade de cometer erros, ou de relaxar por um breve instante, chega a ser comovente. Qiuando bate, ele não sabe se está certo ou errado, não s eimporta com nada, somente bate. Se ninguém mais confia em uma pessoa, se ela possui dúvidas sobre a sua capacidade, basta pensar que o coração possui confiança inexorável nela, uma vez que ainda está batendo.

A melhor representação de um coração, assim como um retrato quase fidedigno da sua magia, foi feita por Leonardo da Vinci:

Os desenhos de Leonardo da Vinci do coração ainda são os melhores, em especial por que, na época, ele não tinha acesso a nenhum tipo de tecnologia (somente o olho e uma mão precisa)

A visão do coração me fez pensar que, se eu tivesse uma escola (claro que em um mundo ideal, se possível sem órgãos burocráticos fiscalizando, por que minha conduta não seria pedagógica), instalaria uma máquina de ressonância e faria as crianças verem o próprio coração. Diante de tal imagem, é impossível não respeitar esta fagulha que chamamos de vida, a magia que faz um coração bater dezenas de vezes por minuto, bombeando sangue para mexer todo o corpo. Somente vendo a maravilha da vida uma pessoa pode aprender a respeitá-la. Talvez a ausência deste aprendizado humanista que faça tantas pessoas beberem antes de dirigir, que faça indivíduos baterem ou matarem outros.  Se eles soubessem a magia que estão terminando, talvez não fossem tão inconsequentes. Se soubessem o milagre que mora no fundo do outro ser humano, talvez não ousassem interrompê-lo.

Mas tudo é talvez para mim. Sorte que, para o meu coração, estas dúvidas pouco interessam, pois o importante é continuar batendo.

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