Saudades do barroco

Hoje acordei pensando no barroco.

No mundo moderno, existe pouca coisa mais obsoleta do que o exagero do barroco. A modernidade chegou e trouxe consigo um ódio mal disfarçado ao  excesso, às luminescências escandalosas, aos detalhes escavados em ouro. O barroco tornou-se uma avis rara, quase um espécime em extinção, item pertencente à História e que o mundo atual encara quase como se fosse aquele tio velho que aparece nas festas de família, bebe e dá vexame. O interessante é que, mesmo relegado e desconsiderado, nunca o barroco se fez tão presente como nos dias vigentes. A diferença é que ele saiu da arte, das grandes igrejas repletas de estátuas e trabalhos em madeira, e se transferiu para o interior das pessoas, sendo emblemático deste culto à personalidade que se espalha como erva daninha no meio social. Atualmente, para aparecer na mídia, uma pessoa precisa ser barroca, necessita de detalhes chamativos, esquisitos.

Certa vez, vi uma entrevista com o Michael Jackson em que perguntaram o motivo das suas estranhezas, tais como a construção de um zoológico particular e as sessões de criogenia que afirmavam que ele fazia em casa (by the way, não adiantaram porcaria nenhuma, pois ele morreu igual). Michael Jackson respondeu que fazia aquilo por determinações da assessoria de imprensa, que pesquisava estranhezas entre o seu público e lhe passava, a fim de construir uma imagem. Como figura humana, para mim ele perdeu grande parte do interesse neste momento: eu preferia o Michael Jackson insano do que uma assessoria de imprensa que pensa este tipo de coisa. Este é o barroco da atualidade: um monte de gente pensando bobagens para que outra pessoa execute e seja cool.

Voltando ao barroco, acredito que as minhas saudades não se relacionam com a vivência do barroco, a qual não tive. Mas sinto falta da ideia de que os artistas podiam sonhar e construir obras de incalculável beleza sem ter uma enorme massa de medíocres podando as arestas da sua criatividade e os impelindo a buscar cada vez menos. É o que vejo acontecer atualmente: as pessoas soltam as comportas da criação e logo aparece alguém dizendo que é um exagero ou “barroco demais” (crítica amplamente estúpida, pois o barroco já é demais por definição, é como dizer sal salgado).

Recordo também do grande ensaio de Haroldo de Campos, “O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: o caso Gregório de Mattos”. Muita gente considera o barroco como um movimento sem expressão nacional, como algo que foi importado de outras culturas. Um grande silêncio ronda o barroco. Geralmente se pensa nele como se fosse alguma coisa ruim, ou um exagero sem sentido. Eu já penso o contrário: o barroco é a forma artística que mais destaca a figura do criador e o leva a se destacar do restante da humanidade. Por este motivo, talvez, ele seja tão desconsiderado e silenciado. As pessoas têm medo daquilo que não são capazes de entender.

Faço esta reflexão por que hoje acordei lembrando de “O Reino deste Mundo”, do Alejo Carpentier. Apesar de ser outro expoente e um dos criadores do realismo fantástico, a prosa de Carpentier se destacava justamente por ser barroca. As descrições são luxuriantes como esculturas forradas a ouro. O leitor se perde em longas descrições e uma vastidão linguística impressionante, repleta de sons, de cheiros, de cores. É possível sentir vida no meio dos livros do Carpentier, uma vida real como caminhar no sol do meio dia sem protetor solar. O escritor cubano traça um panorama legendário e exuberante da história do Haiti. Não consigo entender por que tantas pessoas parecem ignorar Carpentier, mas associo secretamente a este culto minimalista que se apossou das artes  e que, na minha opinião, é somente uma reverberação de pessoas sem conteúdo tentando tilintar sinos invisíveis. É impossível ler a prosa barroca de Carpentier sem sentir uma seiva verde de vida invadindo o corpo e povoando um mundo interno até então árido.

Alejo Carpentier, encurralado por livros

Talvez a coisa mais correta a ser feita é um movimento para tirar o barroco das pessoas e transferi-lo, em segurança, para igrejas ou museus, a fim de que possamos vislumbrar as insofismáveis alturas nas quais a imaginação e a criatividade humana podem chegar se não tiverem limites.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s