Livro: “Mundo animal”, de Antonio Di Benedetto

Depois de ter citado o Antonio Di Benedetto em pelo menos dois posts anteriores, finalmente terminei a leitura e posso tratar do livro completo.

“Mundo animal” seria um grande livro… se só tratasse do mundo animal. No entanto, a editora decidiu acrescentar aquele “e outros contos”, que fizeram o livro sair de “Excelente” para “Ótimo” na minha cotação pessoal. Ocorreu uma evidente ruptura de sentido e de lógica. A parte do livro correspondente ao “Mundo animal” trata de contos em que os dramas humanos repercutem ou se entrelaçam com animais. São contos curtos, intensos, fortes. Por sua vez, os contos que escapam desta temática – os ditos “outros contos” – são longos e com abordagens diferentes. Como não se sabe o momento em que eles foram escritos, não se sabe em qual fase literária o autor estava, se era antes ou depois da concisão absoluta dos contos de “Mundo animal”.  O livro acaba perdendo agilidade e fôlego; parece uma corrida de revezamento no atletismo em que um corredor lidera com folga o primeiro trecho e passa o bastão para uma sucessão de corredores não-profissionais, que atrasam o ritmo e a velocidade da corrida. Importante ressalvar que os contos finais não são ruins, longe disto. O problema é que, depois da expectativa gerada pelo primeiro arco de histórias, com no máximo seis páginas de tensão, é difícil se ajustar para contos longos, caudalosos, com mais de 26 páginas.

Com certeza o autor não imaginava esta descaracterização da sua obra. No entanto, acredito que a editora também teve razões mercadológicas: um livro somente com os contos originais de “Mundo animal” ficaria muito pequeno e dispendioso. Entre lançar um Frankenstein literário, agregando contos de etapas e temáticas diferentes, e não lançar nada, ainda fico com a primeira opção.

Antonio Di Benedetto foi contemporâneo de Borges e Cortázar. A sua obra surgiu pouco antes do boom literário latino-americano, ocorrido por força do realismo mágico de Garcia Márquez. No entanto, ele não se encaixa com comodidade em nenhuma escola literária, e isto demonstra a grande capacidade do autor. Ele oscila entre múltiplos temas e cenários diferentes, mas parece um estrangeiro em todos eles. De tanto enxergar o diferencial que rodeia a realidade, o narrador não está confortável em nenhum lugar, seja na vastidão do campo, seja na solidão de um quarto escuro. De comum nas suas histórias, o traço humano. Na primeira parte do livro, os homens se misturam com os animais: insetos passam a viver dentro de um homem que tentou trazer a beleza para o seu interior ao ingerir uma borboleta (“Borboletas de Koch”, título deveras instigante, fazendo parte da história ao insinuar a tuberculose do narrador); um rato bestial rói as recordações deixadas por um pai (“Amigo inimigo”, com um singular paralelo formado com “O Flautista de Hamelin”);  um menino que cria, na própria cabeça, um ninho para os pássaros (“Ninho nos ossos”). Existem momentos de puro terror, como a mãe que perde o nenê tão aguardado e mata uma gata prenha a chutes (“Trocas com a morte”), ou fantasmagóricos, como o menino proprietário de um cachorro que mora nos sonhos (“Reduzido”). Em todos os contos, Benedetto se destaca pela linguagem comum, simples, mas que esconde universos de significados. É mágico o alcance que ele dá para as palavras: as frases possuem significados ocultos, assim como a construção que ele fornece é realmente poética, repleta de simbolismo. Cada conto é um soco, e fica na memória muito tempo depois da leitura.

Na segunda parte do livro, os contos perdem um pouco de força. Ainda assim, eles são bons, e figurariam fácil em qualquer livro de contos. No entanto, perdem feio para o “Mundo animal” propriamente dito, em especial no quesito concisão.  As narrativas se tornam longas e cansativas; chegar ao final de cada conto se torna épico. Mesmo assim, se destacam  “Falta de vocação” (que tratei em postagem anterior), “Ás” (inquietante história que mistura jogo e dominação feminina) e, o melhor de todos, “O juízo de Deus”. Este conto inclusive merece um estudo especial: a atmosfera sufocante do chefe de uma ferrovia confundido com o pai de uma menina e julgado por um conjunto de homens brutos remete aos julgamentos medievais, em que exigiam ordálios ou provas da vontade divina para inocentar alguém, mesmo com evidências frágeis sustentando a acusação. O conto também é genial por descrever o primeiro duelo que eu já vi entre alpargatas. Sim, alpargatas: dois contendores se enfrentam usando-as como armas, e o resultado é surpreendentemente sangrento.

O resultado final é que, apesar da irregularidade, os contos de Antonio Di Benedetto valem a leitura e as reflexões que originam. A ideia de ver dramas animais no meio das angústias humanas é singular. Retirando as cargas valorativas e o acúmulo de literatura fácil que faz esta junção homem/animal nos dias atuais, Benedetto surpreende pela delicadeza e habilidade com que trata o tema, escapando de comodismos fáceis para mostrar que, no fundo, somos todos animais. Grande parte desta delicadeza parte da linguagem adotada pelo contista argentino, que se reveste de grande complexidade apesar do uso de termos simples.

Antonio Di Benedetto pode não ser tão badalado quanto outros luminares da literatura argentina, mas a leitura de “Mundo animal” é uma experiência muito agradável, para não dizer desbravadora.

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