Falta de vocação

Este é o título de um dos contos de Antonio Di Benedetto, que li ontem e deixou aquela sensação de desconforto que geralmente confundo com a ideia de um conto bom.

A história, como de todo conto bem trabalhado, é simples: um homem de mais de sessenta anos, aposentado, inicia uma amizade com o cronista de um jornal (o nome do cronista é Segura, o que não deixa de ser estranho). Caminhando pela rua, os dois vêem uma pessoa despencar de um prédio. O cronista fica chocado; apesar de escrever a parte policial do jornal, ele nunca viu um crime acontecer, deixando a imaginação preencher a história (a queda do homem representa a realidade com a qual ele está desacostumado). O aposentado enxerga aquele evento e, em um primeiro momento, ele parece abrir as comportas da criação literária. Escreve a história de uma menina cujo pai faleceu no trem. Mostra a história para o cronista, que afirma ser muito imaginativa, pouco real e quase chacina de entrada o esforço literário do outro. Dá alguns conselhos (furados, na minha opinião) e pede para ver outra história. Na semana seguinte, o aposentado apresenta outra pequena história. O cronista pede para ver um trabalho mais extenso. Ao mostrar no jornal, espanta-se ao ver que seus colegas acham valor literário na história apresentada pelo aposentado. Também dizem que nenhuma pessoa começa a escrever aos sessenta anos, que ele deve ter outras experiências ficcionais. O cronista pressiona o aposentado e descobre que ele escreve há muitos anos, deixando os cadernos escondidos em casa, pois traça perfis de pessoas que ele conhece. Pede mais histórias, pretende juntá-las e formar um livro. A esposa do aposentado percebe que ele está agindo de forma estranha: fica muito tempo parado, o olhar fixo no nada. Ao mesmo tempo, o aposentado começa a ter visões: ele vê uma mosca se transformar em um morcego, enxerga outros detalhes do cotidiano com surpreendente vivacidade. Por este motivo, decide parar de escrever, pois mexer com a imaginação é perigoso.

Demorei algum tempo para entender o que tinha me fascinado neste conto. A princípio, era uma história sem maiores complexidades. No entanto, logo percebi que, naquele conto, estava sintetizada uma das maiores lutas travadas por quem mexe com a Literatura, que seria a transição entre o mundo real e o mundo ficcional. Não é fácil, nada fácil. Desconfio muito destas pessoas que dizem que escrever é fácil, ou que conseguem fazer não sei quantas páginas por dia. Escrever é muito complicado. E perigoso. Cada palavra sai como se fosse arrancada. Além disso, esta oscilação entre o real e o ficcional nunca é pacífica. Tenho sérias dúvidas sobre o que é real quase todo o dia. Eu admiro a postura do aposentado, que conseguiu dinamitar a ponte entre a realidade e a imaginação antes que o prejuízo fosse irreversível.

Em certos aspectos, este dilema me lembra um quadro do René Magritte que gosto muito, chamado “O Império das Luzes”:

"O Império das Luzes", de René Magritte, quadro perturbador

Da mesma forma que ocorreu com o conto “Falta de vocação”, este quadro frequentemente assombrava a minha memória. Não entendo muito de arte; da mesma forma que as minhas experiências literárias, sei quando ela funciona e quando não funciona, tudo no campo subjetivo. Levei alguns anos para entender que este quadro apresentava uma curiosa dicotomia entre a claridade do dia e a escuridão que se apossava de  forma absoluta da casa (qualquer relação com o “Casa tomada”, do Cortázar, não seria descabida). Havia vários tipos de luzes, e cada uma delas significava um estado de espírito diferente. Porém, o mais importante de tudo é que não existiam zonas cinzentas ou parcamente iluminadas: a transição entre as luzes se dava de forma direta. Qualquer pessoa consegue enxergar duas realidades em um mesmo quadro – qual delas será a escolhida?

Foi a mesma conclusão a que cheguei após a leitura deste conto do Antonio Di Benedetto. O aposentado enxerga a imaginação como a abertura da Caixa de Pandora, capaz de trazer sofrimento e angústia se comparada à dureza da vida real (onde pessoas se jogam gritando de prédios, sendo silenciadas ao chegar no chão, e as palavras são insuficientes para abarcar o horror da experiência). Por isto, quando pressionado pelo cronista (a sociedade literária, podemos dizer), ele se recusa a entrar no mundo da imaginação, pois isto implica em mudar o real.

Uma pessoa pode olhar “O Império das Luzes” e ver uma casa iluminada em um início de noite; mas também pode pensar por qual motivo a casa está envolta na escuridão enquanto o dia ainda está acontecendo. A pessoa pode optar por qual visão deseja seguir: a real ou a imaginária. Se existisse um teste para verificar a criatividade ou o nível de abstração de alguém, bastava fornecer este quadro e pedir uma descrição do que estava sendo visto.

Magritte possui esta incrível capacidade de sintetizar dicotomias nas suas pinturas. Por isto, seus quadros sempre me deixam desconfortável – e emotivo.

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