Problemas inesperados com o Lovecraft

Após começar a revisar as histórias que escrevi em homenagem ao grande mestre do terror H.P. Lovecraft, meu amigo Tiago Maraschin apontou um problema singular: elas estão muito parecidas com o Lovecraft. Ou seja: de tanto pesquisar os temas, os estilos, a construção argumentativa, as descrições, os cenários e os cacoetes linguísticos, eu escrevi histórias como as que o Lovecraft fazia.

Isto quer dizer que não fiz somente os acertos, mas também os ERROS de Lovecraft. E os problemas de ler Lovecraft nos dias atuais é justamente as descrições longas, o excesso de adjetivos, os cenários inesgotáveis.

Este fato levou-me a uma interessante reflexão. Acredito que foi Nietzsche quem disse que nós lemos os filósofos gregos com olhos modernos, mas eles não tinham a nossa visão moderna quando escreveram as suas obras. Ou seja, o nosso olhar moderno é incapaz de se encantar com a mesma espontaneidade por ideias que já foram concebidas, descartadas e até mesmo evoluídas.

Quando eu escrevi contos como os que Lovecraft faria, eu ignorei fatos de extrema importância, como o desenvolvimento tecnológico e a fragmentação atual das religiões. Além disso, o mundo moderno não comporta mais histórias cansativas e longas. Vivemos em uma época moderna, que demanda histórias ágeis, precisas, que vão direto ao ponto e não se perdem em descrições. De tanto tentar escrever que nem o Lovecraft faria, acabei fazendo o contrário, mostrando o motivo pelo qual ele não é mais lido atualmente (eu e o Tiago nos alongamos na discussão sobre o fato de que as obras atuais que tratam de temas lovecraftianos devem consultar resumos atuais feitos sobre seus contos, ou seja, não consultam mais o material original).

Não sei, mas esta experiência fez eu me sentir como “Pierre Menard, autor de Quixote”, conto de Jorge Luis Borges. Pierre Menard não é Cervantes. Não sou Lovecraft e nem posso escrever como ele, pois sou uma pessoa de outro tempo, outros valores e outras vivências. O Tiago disse que matei a minha voz de autor para dar vazão à voz do Lovecraft.

O desafio agora ficou mais interessante. Se Lovecraft nascesse hoje, qual seria a sua escritura? Seus temas? Suas inquietações? Vou adaptar os temas para o meu estilo, minhas regras, minhas inquietações. Não vou descartar os contos antigos – servem quase como uma experiência arqueológica -, mas vou escrever como eu faria.

Selecionei uma foto, uma gravura que retrata Dom Quixote e sempre me deixa em um misto de fascínio e desesperança. Um Dom Quixote envelhecido, junto à tênue luz que vem da rua (seria a luz do entardecer de sua vida?) luta contra as criaturas que se escondem na escuridão do seu quarto e que parecem se originar de livros, em um caleidoscópio de cavaleiros e bestas fundidos em um ser disforme. São fotos como esta que me dão certeza que livros podem matar uma pessoa mais facilmente do que uma bala.

Inquietação e medo - Dom Quixote quer evitar que as criaturas saiam da sua mente para o mundo ou está aproveitando as últimas luzes da sua existência em uma batalha desesperada?

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s