Sobre o ar

Hoje, passei boa parte da manhã acompanhando a instalação de um condicionador de ar split na minha fortaleza de Teutônia, que estava sendo literalmente incendiada pelo implacável sol do verão gaúcho (existia um receio não-confessado que tamanho sol pudesse incendiar os meus livros, mas acredito que seja improvável. Em todo o caso, coloquei a estante no lado contrário ao que incidem os raios solares).

Neste intervalo de tempo ocioso, fiquei refletindo sobre o ar.

Sim, o ar, esta substância invisível que colocamos para dentro do corpo, utilizamos aquilo que nos interessa e depois jogamos para fora o gás carbônico, outra prova da insensibilidade geral que norteia a civilização humana.

Se pensarmos bem, o ar está em toda a Terra nos rodeando. Quando caminhamos ou nos movemos sobre o planeta, na realidade estamos rompendo (e corrompendo) o ar que nos cerca. Se hoje o ar virasse sólido, ficaríamos como moscas fossilizadas, daquele tipo que fica paralisada na resina de alguma árvore. Não vivemos sem ar, mas é o mesmo ar que nos propicia a vida quem acaba deteriorando e envelhecendo as nossas células. Ele é um veneno, ministrado calmamente durante toda a nossa existência, fornecendo energia e erodindo a nossa juventude.

Anaxímenes de Mileto (588-524 a.c) afirmou que tudo provém do ar e tudo retorna a ele. Ele disse uma frase que ficou famosa: “Exatamente como a nossa alma, o ar mantém-nos juntos, de forma que o sopro e o ar abraçam o mundo inteiro.” Engraçado que ninguém pensou no caráter fatídico desta declaração: não podemos escapar do ar. Ele está em todos os lugares. Se queremos viver, precisamos estar sob o seu jugo. E podemos ampliar o horror desta constatação de uma fuga impossível quando pensamos na segunda consequência desta frase: o ar é o elemento que nos dá concretude. Ele faz a barreira entre a pele e a não-pele, ou seja, o ar cerca os limites de cada pessoa.

Anaximenes, com olhos vazios contemplando o ar

O grego também dizia que o ar possuía vida e existência própria. Se levarmos esta ideia às úlltimas consequências, a tarefa de cada ser humano no planeta é destruir e matar o ar através de sucessivas inalações e conversão em outros gases. Em troca dos ataques protagonizados pelo ar contra as nossas células e a sua deterioração constante, nós tentamos matar o ar a cada mínima respiração, infantil ou adulta. Se pensarmos desta forma, somos soldados em meio a uma guerra eterna.

Além disso, Anaxímenes também falou que todos os elementos se originaram do ar, tais como o fogo, a água (evaporação e condensação), as nuvens,  a terra e até mesmo as estrelas (que seriam rarefações do fogo do qual se originou a terra). É interessante que ninguém tenha levado a sério este filósofo. Tanta gente inventou teoria das mais estapafúrdias de origem do mundo e ninguém pensou de onde veio o ar e se ele não estava na nossa origem.

O mundo segundo Anaximenes. Um pouco perturbador este azul claro ao redor do mundo

As obras de Anaxímenes não chegaram até a atualidade, só se sabe dele por causa das referências feitas nas obras de outros filósofos. No entanto, não deixa de ser assustadora a concepção de que podemos estar vivendo dentro do Deus-Ar, respirando-o centenas de vezes por dia, enquanto eles nos mata com lentidão e paciência. Não conheço elemento mais onipresente para a vida humana do que o ar, não conheço elemento que seja mais onisciente (pois quem simultaneamente está em todos os lugares ao mesmo tempo não fica longe de se gredos), não conheço elemento que esteja dentro e fora das pessoas com tamanha naturalidade e que nos irmane mais do que o ar. Talvez esta fosse a resposta para os fundamentalistas, grupos da minoria ou fanáticos de qualquer tipo: se você respira, então nós somos iguais.

De qualquer jeito, menos preocupado com a vastidão inimaginável de ar que me rodeia (quanto ar existe no mundo?) e que neste momento está sendo respirado ao mesmo tempo por bilhões de outras pessoas (eu incluso), só posso agradecer que, ao menos hoje, ao menos em Teutônia, estou respirando um Deus mais gelado e menos sufocante.

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