Ficção e realidade: um paradoxo

Ernesto Sabato escreveu:

“UM DOS PARADOXOS DA FICÇÃO
É característico de um bom romance que nos arraste para seu mundo, que nele mergulhemos, que nos afastemos a ponto de esquecer a realidade. E, não obstante, ele é uma revelação sobre a mesma realidade que nos rodeia!”
(SABATO, Ernesto. O escritor e seus fantasmas. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 168).

É um paradoxo interessante. Ao mesmo tempo em que o autor cria uma realidade paralela dentro da sua obra, a leitura faz com que aquele arremedo de realidade crie vida diante dos olhos de uma pessoa que se absorve pela história.
Na zona cinzenta existente entre realidade e ficção, mora o paradoxo da criação literária. Parte da realidade, mas com ela não se identifica. O autor descreve uma pedra, mas a pedra existe fora do livro. Ao mesmo tempo, a ficção torna-se real pela leitura, mas é desprovida de realidade. Por mais detalhista e obsessivo que seja o autor de um livro de História, por melhores e mais abrangentes que sejam as suas fontes, ele está escrevendo uma obra de ficção. O próprio encurtamento do aspecto temporal em parágrafos (“E assim passaram-se semanas….”) é impossível, posto que, na vida real, as semanas não transcorrem em um passe de mágica.

Eu gosto de paradoxos. Na definição clássica, paradoxo é uma declaração verdadeira que leva a uma contradição lógica. No conto “A gênese dos paradoxos brancos”, contido no meu livro de contos, “O homem despedaçado”, defendo a ideia de que o paradoxo é a forma que Deus usa para individualizar cada ser que habita o globo terrestre. Na alegoria que utilizei no conto, o paradoxo funciona como uma espécie de “código de barras”, que Deus lê com a sua máquina própria e descobre quem realmente somos. Cada ser seria formado por um único paradoxo, ou seja, cada ser seria um paradoxo ambulante. São evidentes os perigos de ler o paradoxo que constitui a própria essência, e a leitura do meu conto revela o problema insolucionável de se meter em assuntos acima da alçada que nos cabe.

Realmente acredito que as pessoas são paradoxais. Às vezes, elas tomam atitudes que vão contra toda a lógica e são de natureza tão contraditória que nos custa a acreditar que tomaram tais decisões. Que o digam os campos de concentração, ou atentados suicidas. Borges já disse: “Ah, se a vida tivesse os pruridos da ficção!”. É uma verdade absoluta. Acredito que o paradoxo da criação literária não seja a contenda realidade X ficção, e sim o fato de que cada pessoa que lê um livro pode fazer com ele aquilo que bem entender, podendo ou não compreendê-lo. A multiplicidade de interpretações faz com que algumas pessoas encarem como realidade um livro, outras vejam um manifesto ficcional em um texto crítico.

Não existe norma na leitura, não existe norma na criação literária. Só existem os seres humanos, estes paradoxos ambulantes.

 

"Relativity", quadro de M. C. Escher, um bom exemplo para paradoxos.

 

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