Livro: “1599 – Um ano na vida de William Shakespeare”, de James Shapiro

Assim que vi o livro, o primeiro elemento que chamou a minha atenção foi a capa. Este tom acobreado, com os barcos em um final de tarde singrando o Tâmisa, conquistou-me desde o início.  Quando vi a proposta do autor – pegar um ano na vida de William Shakespeare, o ano mágico em que ele escreveu “Henrique V”, “Júlio César”, “Como gostais” e “Hamlet”, e ver todos os fatos que ocorreram naqueles meses, destacando a sua influência sobre as peças de teatro, revelando os bastidores políticos e econômicos da corte da Rainha Elizabeth I – fiquei definitivamente seduzido pela ideia.

A leitura não me decepcionou. Shapiro foi muito hábil ao construir a história e, em alguns momentos, a imaginação e a força que fazia para transmitir concretude para seres humanos que passariam à História (com “H” maiúsculo) trouxeram suspense e mistério para a trama. Todos sabem como a história se desenrolou, mas o autor transmite um grande grau de incerteza, que deixa o leitor em constante estado de tensão. Bom exemplo disso é o início do livro, quando o autor narra a caminhada noturna de William Shakespeare e os demais membros do Chamberlain’s Men, atravessando Londres para retirar um teatro construído em um terreno alugado e transferi-lo para outro terreno (onde ficaria o The Globe original). É um momento tenso na vida de William Shakespeare, e Shapiro deixa esta preocupação bem evidente. Por causa de duvidosas questões contratuais, o dono do terreno poderia pleitear o madeirame do teatro a seu favor, em uma questão jurídica que poderia se estender por anos. Por causa disto, aproveitando-se da véspera de Natal, Shakespeare e seus companheiros resolvem remover o teatro inteiro (às escondidas) e transferi-lo para o outro lado de Londres. O tempo gelado, os vizinhos que acorreram para tentar impedi-los, o cuidado dos construtores ao desmontar e numerar cada peça para permitir a futura reconstrução, tudo é motivo de tensão e expectativa. Fica evidente que aquele é um dos momentos capitais da vida de Shakespeare, e o mundo talvez não teria estas quatro grandes peças de teatro se aquela simples questão não fosse resolvida.

Em outros momentos, o autor novamente contou a história como se ela estivesse se desenrolando em tempo real nos dias atuais. As batalhas diplomáticas da rainha Elizabeth I com o Conde de Essex são hilárias. Essex é jovem e impetuoso; a rainha Elizabeth é um animal político, velho e experiente. Do contraste entre as duas personalidades, acabam saindo os melhores momentos do livro. O momento em que Essex, irritado com uma decisão contrária da rainha aos seus interesses, vira-se de costas para a soberana para ir embora e a rainha Elizabeth o alcança na corrida, desferindo-lhe um tapa na cabeça, está entre as passagens mais engraçadas do livro.

Ao mesmo tempo, James Shapiro investiga com profundidade os livros que teriam sido publicados na época, bem como a possibilidade de serem consultados por Shakespeare, assim como as influências que as peças sofreram das leituras do bardo. A reconstrução de Londres é tão precisa que parece estarmos caminhando junto com Shakespeare pelas livrarias, por entre as ruelas, pelos becos. Da mesma forma, o autor revive a experiência teatral da época, mencionando que Shakespeare estava apresentando suas peças provavelmente para o público de teatro mais crítico da história, pois era um volume absurdo de peças teatrais novas que eram assistidas pelos londrinos, sempre ávidos por novidades.

Muito interessante ver como as peças de Shakespeare se articulavam dentro do contexto histórico. O autor faz um grande trabalho arqueológico, vendo, nas minúcias das falas e das colocações de cada personagem, pequenas nuances das situações históricas vividas. O público ia ao teatro para ver a história de Henrique V ou de Júlio César (melhor dizendo, a história de Brutus, o personagem mais instigante da peça) e acabavam identificando detalhes da corte e de personalidades que então regiam as suas vidas. Da mesma forma, muito oportuna a revelação de como Shakespeare teve que retirar William Kemp das suas peças, pois a figura cômica de um bufão não se adequava mais aos assuntos que ele desejava tratar. Foi uma decisão de extrema coragem, ainda mais se considerarmos que o bufão era o ponto de relaxamento das longas peças de teatro, servindo para as plateias relaxarem e darem algumas risadas.

Ao final, um certo clima de nostalgia envolve o livro, quando o autor conta a história das inúmeras versões de “Hamlet” e temos o conhecimento de que a peça que chegou até a atualidade não é o verdadeiro “Hamlet”, e sim uma junção de duas ou mais versões, o que explica algumas incongruências encontradas na peça. Shapiro se esforça para reconstruir a versão idealizada por Shakespeare, e este é o único pecado do livro: como bom aficcionado pelo tema que escreveu, às vezes o autor mergulha fundo no que “gostaria que tivesse sido”, deixando pouco espaço para “aquilo que aconteceu”. Por vezes, a narrativa do livro fica imprecisa e impressionista demais, quando Shapiro preenche lacunas com o seu desejo do que gostaria que tivesse acontecido. Entretanto, justiça seja feita, no prólogo ele avisou que iria tomar esta atitude, até para impedir que a narrativa trancasse.

Uma excelente leitura. Em alguns momentos, a narrativa ficou um pouco trancada, mas nada que prejudicasse demais a leitura. Recomendo fortemente o livro, tanto para aqueles que estudam a Literatura (como eu) quanto para aqueles que gostam de História, pois o autor encontrou a simbiose exata entre a forma que os acontecimentos históricos podem influenciar a construção literária de um período. Além disso, transformou Shakespeare, aquela figura simpática representada por pinturas que nada tinham a ver com a sua aparência real (outro detalhe saboroso do livro), em uma criatura de carne e de ossos, de som e de fúria.

 

Algumas fotos do The Globe, antes e atualmente:

 

Projeto do The Globe Theatre

 

Teatro The Globe hoje, após ser reconstruído

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3 Comentários

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3 Respostas para “Livro: “1599 – Um ano na vida de William Shakespeare”, de James Shapiro

  1. clarice Simm

    Eu estou lendo e concordo com tudo do comentário. Muito bom e aprazível para ler.

    • Oi, Clarice, é um livro maravilhoso mesmo, daqueles que a gente começa e fica torcendo para que nunca acabe. A decisão de escolher um ano na vida do Shakespeare, um ano decisivo, me fez pensar em quantas maravilhas se esconderam dentro deste ano e que são inatingíveis pelos biógrafos.Um ótimo livro de história, e um excelente livro de literatura.

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