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Apontamentos para uma história trágica da literatura

Começarei a falar de literatura com a descrição de um quadro. Na sala de um consultório médico que frequento com desagradável habitualidade, existe a reprodução de um quadro de Picasso. Não sou um especialista em Picasso, muito menos seu admirador incondicional:  no entanto, reconheço os traços típicos da sua Fase Rosa, as matizes mais quentes das cores, a exploração do feminino, a bifurcação do rosto que, ao mesmo tempo em que olha o espectador do quadro, também está de perfil, dissimulando os pensamentos da mulher retratada. Com a devida relutância, reconheço o fascínio da obra e sei que, daqui a 20, 50 ou 100 anos, ela continuará encantando com a sua construção quase displicente, leveza de traços e concentração de esforços para gerar um efeito no espectador. Admito a eternidade da pintura, a sua imanência, mesmo sem gostar dela.

Na época da sua produção, as obras de Picasso não foram bem recebidas, em especial no início do movimento cubista. Ele teve sorte de ver seu trabalho ainda reconhecido em vida, mas foram poucos os artistas que tiveram tamanha honra. A grande maioria viveu sem ter reconhecimento em vida e, pior ainda, alguns passaram por períodos de fome, por tragédias familiares, por problemas graves de saúde, por pobreza extrema. E, ainda assim, produziram sem se queixar ou sem se aviltar. E suas obras constituem patrimônio universal.

Tenho acompanhado um sem-número de discussões na mídia em que as pessoas procuram estabelecer o que é literatura ruim e o que é literatura boa. Considero impressionante a quantidade de pessoas que se empenham em um pugilato inócuo usando palavras como socos ou chutes. Tornou-se um lugar comum considerar que os livros que vendem bastante são má literatura. Também vejo muita gente debochando do gosto pessoal de outros leitores, ou tachando gêneros literários como uma “literatura indigna”. Sou contra estas classificações, e muito me espanta que a maioria delas venha de outros escritores. Na minha opinião, soa como uma forte espécie de despeito: como meu livro não é lido na mesma proporção dos outros, é por que os outros são ruins ou “populares”, os livros são melhor colocados nas gôndolas das livrarias ou os leitores não sabem diferenciar a boa da má literatura.

Admito que todos os argumentos são válidos, mas me pergunto se esta não é uma posição cômoda: culpar os outros pela falta de alcance do próprio livro. É inegável que autores de bestsellers identificaram uma aspiração ou inquietude da sociedade e a souberam materializar em uma obra de ficção. O fato de se tornarem muito vendidos só demonstra a acuidade da visão do escritor na sua apreensão do mundo real. Soa estranha esta visão de que literatura bem sucedida (e, na proporção inversa, ruim) é aquela que vende mais. Parece um resquício de visão católica, em que os ricos devem distribuir a sua riqueza para a felicidade geral do mundo, pois o capital é moralmente obsceno. Para mim, existe literatura adequada às minhas aspirações (aquela que funciona e não me subestima como leitor) e literatura inadequada (aquela que não funciona dentro das minhas especificações, mas que pode agradar outras pessoas menos exigentes).

Como nas enchentes, muitos livros entram na enxurrada social, mas poucos sobreviverão à insaciedade das águas.

Como nas enchentes, muitos livros entram na enxurrada social, mas poucos sobreviverão à insaciedade das águas.

Penso ser relevante mostrar outro ponto de vista: o quanto eu, como artista, desejo realmente ser consumido? O que seria uma quantidade ideal de leitores: dez? Mil? Um milhão? Isto realmente importa? Dez leitores atentos são ainda mais interessantes do que um milhão de leitores que cedem aos apelos midiáticos ou influência do meio social e acabam comprando bestsellers para colocar nas prateleiras.

Ao invés de definir aquilo que é bom ou ruim com base na lista dos mais vendidos, sugiro um estudo retrospectivo: por que certos autores espezinhados pela mídia do seu tempo, pobres, ignorados ou escarnecidos pela sociedade, ainda são lidos, enquanto os queridinhos da época hoje são solenemente ignorados? Seria interessante pesquisar, novamente através de um método arqueológico, quais os fatores sociais que determinaram a aceitação de uma obra em detrimento de outra. E por qual motivo os verdadeiros artistas, aqueles que sobreviveram à voracidade dos anos, na sua época foram destratados ou ignorados. Seria medo do novo? Receio do desconhecido?

Somente através desta pesquisa chegaríamos à imanência, à eternidade, aos verdadeiros valores que são mantidos era após era, milênio após milênio – a verdadeira natureza do homem. Deve-se buscar os motivos pelo qual uma obra faz sucesso em uma determinada época, enquanto outros trabalhos artísticos só encontram sucesso fora do seu tempo. Esta ideia também é defendida por Schopenhauer, no seu “A arte de escrever”:

“Gostaria que alguém tentasse escrever um dia uma história trágica da literatura, na qual expusesse como as diferentes nações, cada uma das quais deposita seu maior orgulho nos grandes escritores e artistas que tem a exibir, trataram esses homens durante suas vidas. Assim, o autor poria diante dos nossos olhos aquela interminável batalha travada pelo que é bom e autêntico, em todos os tempos e países,  contra o domínio do que é deturpado e ruim; descreveria o martírio de quase todos os verdadeiros iluminados da Humanidade, de quase todos os grandes mestres em cada disciplina e em cada arte; mostraria como eles, com poucas exceções, sofreram na pobreza e na miséria, sem reconhecimento, sem apreço, sem alunos, enquanto a fama, a honra e a riqueza eram reservadas aos indignos em cada área. Sua sorte foi a mesma de Esaú, que foi substituído, enquanto caçava para levar comida para o pai, por Jacó, vestido com suas roupas, para roubar em casa a benção paterna. Como, apesar de tudo, o amor à sua causa manteve os educadores da espécie humana em seu caminho até que terminasse sua difícil batalha, o laurel imortal lhes foi concedido e chegou enfim a hora em que se pode dizer a seu respeito: ‘A pesada couraça ganha asas, / Curta é a dor, eterna a alegria’.”

Não cansa de me impressionar a quantidade de tempo – e de espaço mental – que as pessoas perdem discutindo os motivos pelo qual a “literatura ruim” vende mais do que a “literatura boa”, e os motivos dela ser consumida em números gigantescos, maiúsculos. Lucrariam bem mais se estivessem olhando para os lados e procurando as obras que irão sobreviver à carnificina dos tempos, procurando os traços da eternidade que caminham por aí, impunes. Se são escritores, pior ainda; deveriam estar escrevendo mais e melhor, estudando com mais afinco, lendo com mais energia. Não deveríamos nos preocupar tanto com classificações ou com o sucesso dos outros. Deveríamos pensar mais no nosso próprio talento, na nossa força criativa. Deveríamos ser melhores. E não falo isto somente no aspecto literário: qualquer um pode ser melhor naquilo que faz se deixar de cuidar dos outros e se concentrar na especialização do próprio talento.

Enquanto o mundo tenta se classificar e artistas entram em uma disputa autofágica para tentar anular o sucesso de algumas obras e idolatrar as suas próprias, existe uma categoria especial que não se preocupa com isto. Eles estão ocupados com a sua produção, com o burilamento das suas capacidades, com o estudo constante da forma, com o autoconhecimento. Estão escrevendo, deixando o trem desgovernado seguir montanha abaixo, emocionados com o milagre daquilo que sai de sua mente, em uma sensação que Tchekóv, somente ele, através do personagem Trigorin na peça  “A Gaivota” (preciso reler o Tchekóv urgentemente) seria capaz de descrever com uma precisão absoluta. É assim que eu me sinto. Exatamente assim. E começaria os apontamentos para uma história trágica da literatura lembrando que os maiores artistas são aqueles que nunca param, aqueles que possuem uma incansável bala de canhão na imaginação:

“Há na nossa mente algumas ideias obsessivas, que a dominam: por exemplo, uma pessoa pode pôr-se a pensar na Lua,  dia e noite. Ora bem, eu tenho a minha própria lua. Passo o dia e a noite obcecado por uma só e única ideia: escrever, escrever, escrever. Mal acabo uma história e já tenho de escrever outra, sei lá por quê, e depois escrevo outra, e mais outra… Ponho-me a escrever, a escrever sem parar, como um cavalo de diligência, não sei fazer  doutra maneira. Diga-me se é assim tão excitante tudo  isto, tão maravilhoso… Ah, é uma maneira de viver  absurda. Estou aqui consigo, emocionado e a pensar a todo o momento numa história, na minha história inacabada que me espera. Estou agora a ver, uma nuvem, que parece um piano enorme. E penso logo que  não posso esquecer-me de a incluir numa história – uma  nuvem que passou, flutuante, e que parecia um piano.  Cheira a heliotrópio. E, num ápice, anoto no meu pensamento: perfume doce, do tom da viuvez, lembrar e usar numa descrição de noite estival. Apanha cada frase, cada palavra minha e cada palavra sua, e, no momento seguinte, tudo isso já está guardado no meu cacifo literário, frases, palavras – ainda me podem vir a servir, em qualquer momento! Quando chego ao fim do meu trabalho, ou me meto num teatro ou vou para a pesca. Ao menos, nessa altura, eu deveria poder esquecer e repousar um pouco – mas não! oh maravilha! – uma  autêntica bala de canhão começa às voltas no meu cérebro, a sacudi-lo. É um novo tema para uma história,que me empurra para a minha secretária, e aí tenho eu, uma vez mais, de escrever, escrever. É e será sempre assim, não encontro a paz em mim próprio, sinto que estou a consumir a minha vida. Por umas gotas de mel,que eu destilo para outros, roubo o pólen das minhas mais belas flores, arranco-as e espezinho as raizes. Não lhe parece que estou louco?”

Sim, Tchekóv. Completamente.

Confessei a perturbação e fascínio que a reprodução de Picasso me causa; ao mesmo tempo, admiti não ser um fã entusiasta do seu estilo. No entanto, o motivo deste fascínio me traz questionamentos: o que a minha alma vê que os olhos são incapazes de perceber? Posso confiar na minha traiçoeira visão ou devo ser conduzido pelo insidioso espírito do quadro? Então, se eu fosse realizar esta história trágica da literatura da forma com que Schopenhauer propõe, eu iniciaria tentando definir qual é o conceito de permanência. Em seguida, consultaria e revisaria cada um dos autores, vivos ou mortos, se eles se sentem como Tchekóv descreveu e tentaria ler, nas suas atitudes, na sua chama interna, na sua insaciedade espiritual, se eles sentem a coisa queimar como o pior dos fogos do inferno. Então, afastaria os invejosos e aqueles que pensam que este tipo de sentimento pode ser classificado, e criaria o meu próprio Olimpo, a Cidade dos Homens e Mulheres que Valem a Pena, estas silenciosas somnbras repletas de tragédia.

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