Arquivo da categoria: Fernandinho Beira-Mar

Uma barata no quarto e as leituras no presídio: possibilidades incômodas

Em certa noite do passado, ao entrar no meu quarto, vi uma barata no meio da parede.

Era tarde e eu estava cansado. Como era de se esperar, saquei o chinelo, aproximei-me da barata… e não consegui matá-la. Inocente no meio da brancura da parede, ela mexia as antenas com lerdeza e me olhava com a mesma placidez com que uma vítima encara o carrasco. Sem muito esforço, eu podia imaginá-la de olhos fechados, rezando pela sua alma de queratina, esperando o golpe que iria tirá-la daquela vida de sujeira e esquivas.

Por longos minutos, erguia o chinelo, mirava a barata… e não conseguia. Logo constatei que ia ser incapaz de desfechar o golpe decisivo, não interessava quanto tempo passasse. Por outro lado, não podia deixá-la vagando pelo meu quarto. Somente um de nós dois podia prosseguir naquele momento que nossas vidas paralelas se cruzaram.

A única solução que se tornou possível foi terceirizar o ato. Bati na porta do quarto do meu irmão e o acordei. Sem entender direito, ainda imerso nas paisagens oníricas, ele escutou o meu esdrúxulo pedido: queria que fosse no meu quarto e matasse uma barata. Eu esperava a sua fúria, mas encontrei inusitado entendimento. Sem questionar, sem dúvidas ou perguntas, meu irmão pegou o chinelo, aproximou-se da parede e matou a barata com um certeiro golpe. Voltou para o seu quarto e continuou dormindo.

Claro que, no dia seguinte, virei motivo de piada familiar por esta inexplicável relutância. Sequer eu era capaz de entender o motivo de tamanha hesitação em um assunto tão ínfimo. Depois de muita reflexão, cheguei a uma conclusão estarrecedora: um mês antes, tinha lido “A metamorfose”, do Kafka. E minha visão da barata tinha mudado. Eu não achava mais tão impossível pensar que ela era um ser vivo e pensante. Que matar uma barata era tirar uma vida, e que tirar uma vida é destruir o mundo inteiro.

(Os anos passaram e, hoje, tenho uma visão diferente deste momento. A filosofia de Michel de Montaigne vinha da sua habilidade de olhar o mundo pelos olhos alheios e sentir-se como se fosse o outro. Quando olhei a barata e entendi o meu destino de matador, trocamos de lugar. Encarei o universo circundante pela perspectiva dela e vi a minha aproximação sorrateira, o chinelo executor pairando no ar. Por isto, fui incapaz de matar, pois matar era terminar também comigo. Esta possibilidade sempre me deu uma interpretação toda particular de “A metamorfose” – pensar pelos olhos do outro é ser o outro. Não consigo mais considerar tal livro como uma obra de ficção, pois, ora diabos, aconteceu comigo).

Uma versão digna da capa de “A metamorfose”, de Kafka, pelo site Devianart.com. A barata já trocou de lugar com o homem. A parede ainda guarda as marcas da batida que tentou matá-la. Excelentes possibilidades se abrem com esta visão do livro.

Estas lembranças surgem do passado por causa de uma alvissareira notícia veiculada na mídia ontem, enviada a mim pelo grande Anderson Cerva, do blog Plena Poesia (http://plenapoesia.blogspot.com.br/). Em Santa Catarina, o juiz Márcio Umberto Bragaglia instituiu um projeto chamado “Reeducação do Imaginário”. Por este projeto, presos que lerem obras clássicas da Literatura (Dostoiévski, Conrad, Shakespeare, Dickens, Walter Scott) terão a sua pena reduzida. Vou colocar o link da notícia:

http://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2012/11/presos-que-lerem-dostoievski-terao-pena-reduzida-em-comarca-de-sc.html

A manchete explica bem a forma com que a redução da pena acontecerá, assim como a progressão das leituras a serem realizadas. É um projeto corajoso. Mexer no imaginário é a forma mais correta de corrigir um defeito, é corrigir as raízes para evitar que a árvore siga torta. Também é uma ideia ambiciosa – imaginar que livros podem modificar uma pessoa.

Sempre defendi que a Literatura pode mudar o mundo. Diariamente, no meu escritório de Direito, vejo a Literatura misturando-se entre as pessoas, incógnita, contando histórias que já ouvi antes. As pessoas não sabem, mas elas interpretam papéis que escritores traçaram há muitos anos. Costumo dizer – brincando – que, se os bandidos estudassem Literatura, eles seriam invencíveis. No entanto, assim como pode ser usada para o bem, também pode ser usada para o mal. A capacidade de antever o futuro e saber que estamos seguindo roteiros estabelecidos está na Literatura, e quem estudar isto pode fazer qualquer coisa.

Há questão de quatro anos, vi uma declaração de Fernandinho Beira-Mar, famoso traficante que se acredita ser o coordenador do tráfico no Rio de Janeiro, mesmo estando em uma cela isolada. Ele mencionava algumas das leituras que tinha realizado, com comentários estilísticos e formais. Para minha surpresa, constatei que a sua leitura era lógica, atenta e muito inteligente.  Não é à toa que ele consegue iludir o sistema penitenciário e enganá-lo. As pessoas que leem estão preparadas para qualquer situação. Encontrei manchetes esparsas mencionando as leituras feitas por Beira-Mar, mas todas são unânimes em afirmar que ele lê cinco livros por semana. É muito maior do que a média de leitura do brasileiro em geral. Esta manchete – cujo link coloco abaixo – menciona alguns dos livros e, no meio de best sellers insossos, está o espantoso “A arte da guerra”, de Sun Tzu:

http://forum.cifraclub.com.br/forum/11/278815/

Um incauto poderia rir de “O código da Vinci” e de “O caçador de pipas”, dizendo que são leituras irrelevantes, mas seriam mesmo? Pois não existe leitura ingênua e qualquer livro é um voo imaginativo. Não é à toa que, sonhando e lendo, Fernandinho Beira-Mar consegue a proeza de comandar uma organização criminosa de dentro de um presídio de segurança máxima, mesmo em completo isolamento.

Um homem com tal cabedal de leituras, que passa seus dias lendo e estudando, é uma das pessoas mais perigosas do mundo. Gostaria muito de dizer que existe uma força na Polícia com igual capacidade de inteligência e idêntica abstração formada pelos caminhos imaginativos da leitura. Fernandinho Beira-Mar ainda não encontrou o seu Sherlock Holmes, e o fato das notícias manterem silêncio sobre ele não quer dizer que o bandido tenha deixado de existir. Ele está lendo e refletindo, enquanto as pessoas perdem tempo com outras bobagens.

A revista VEJA fez uma análise deste direito. Ridicularizou um pouco a leitura, rindo da suposta qualidade estética dos livros adquiridos pelo governo (como se ler a revista fosse mais apropriado do que ler qualquer livro, argumento altamente questionável) e falando da redução da pena. Olhem o link:

http://veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/governo/beira-mar-podera-reduzir-ate-15-anos-da-pena/

A pergunta na foto me intriga: “A leitura vos libertará?”. É um jogo de palavras medíocre, claro, com a frase da Bíblia que afirma que a verdade libertará. Não penso existir dúvida nenhuma na resposta para tal indagação. A leitura sempre liberta, e geralmente da pior das cadeias possíveis – aquela formada pelo próprio cérebro.

A Literatura pode mudar qualquer pessoa. Assim como me impediu de matar uma barata, ela pode fazer com que os presos tenham mais consciência dos atos que praticaram. Por outro lado, também pode transformar aprisionados em máquinas de raciocínio sem igual. Se unir a sua criatividade criminosa com as tramas literárias, eles serão invencíveis. Por isto, não basta selecionar as leituras ou controlar os presos: o importante é manter uma discussão filosófica sobre cada livro, ver o que cada um entendeu e como articulou aquele aprendizado dentro da própria vida. Mas não sei se juízes ou serventuários da Justiça seriam capazes de tal análise: duvido que até mesmo psicólogos, psiquiatras, psicanalistas ou assistentes sociais sejam capazes de entender as filigranas do impacto da leitura na alma de um homem. Igualmente duvido que professores e teóricos da literatura sejam capazes de detectar estas flutuações no discurso de um bandido, as interpolações daquilo que surgiu por obra da leitura em contraste com as suas circunstâncias de vida.

Acredito que somente um profissional altamente especializado pode ser o juiz desta questão. No entanto, como o governo se rege por regras rígidas, os livros continuarão sendo escolhidos à esmo e as resenhas abaterão a pena com o seu formalismo seco, sem saber o quanto as águas internas de cada preso foram sacudidas ou acalmadas pela leitura.

Teve um detalhe na história da minha inexplicável identificação com a barata que nunca consegui entender. Onde saiu a ideia de chamar o meu irmão e transferir a morte para outras mãos? Foi um pensamento meu ou algo infiltrado por um livro? Realizar esta conduta foi muito semelhante ao que os alemães fizeram na Segunda Guerra Mundial – delegar a morte para outras pessoas e, depois, se isentar da culpa ao dizer que estavam seguindo regras. Este é o princípio maior esculpido nos julgamentos de Nuremberg: um homem é responsável pelas mortes que pratica se recebeu a ordem de outra pessoa?

Receio que os livros tenham mexido demais com a minha cabeça, pois não lembro mais o ponto no qual começo e os livros terminam.

4 Comentários

Arquivado em A Metamorfose, Barata, Direito, Fernandinho Beira-Mar, Franz Kafka, Generalidades, Leitura, Literatura, Livro, Redução de pena, Temas de crítica literária, VEJA