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Devemos lembrar das borboletas

Às vezes, eu lembro do Bingo.

O Bingo era o cachorro perdigueiro da minha avó. Marrom, afável, com longas patas descordenadas, era uma alegria só, em especial quando, sem noção do seu gigantismo, pulava nas outras pessoas para cumprimentá-las e quase as derrubava. Com este nome, só podia ser cachorro da minha avó, uma aficcionada por jogos lícitos (e alguns ilícitos, mas pararei por aqui).

Porém, o Bingo mancava das patas traseiras. Quando ele caminhava, o fazia de forma torta, desequilibrada. Certo dia, perguntei para a minha avó o motivo do cachorro se deslocar daquela forma. Ela contou que, quando era pequeno, o dono do Bingo ensinou-o a caçar. Quem não está acostumado às lides campeiras pode desconhecer, mas os perdigueiros são treinados para auxiliar na caçada, primeiro apontando o local onde as perdizes se escondem e, em segundo lugar, buscando o corpo das aves finalizadas.

Voltando à história: após exaustivas aulas, o Bingo tinha sido levado para testar o seu valor em uma caçada real. Ele até que estava se portando bem: localizara as perdizes e estava sinalizando a sua localização para as espingardas dos caçadores. No entanto, algumas borboletas passaram sobre a grama e, esquecido das perdizes, o Bingo desandou a correr atrás delas, feliz da vida, saltitando em meio ao campo. Diante das risadas dos seus companheiros e (dizem) alcoolizado, o dono do Bingo se irritou e cometeu um ato impensado: ergueu a espingarda e atirou no próprio cachorro, acertando-o nas patas traseiras.

Com pena do destino do perdigueiro, declarado incapaz para ser um caçador e – por que não dizer – um pária da própria raça, a minha avó decidiu criá-lo. Os dois viviam aos tapas, por que o Bingo era mal educado e muito afável, o tipo de cachorro que joga as visitas no chão e brinca com elas até cansar, mas viver aos tapas também é viver carinhosamente.

Quando lembro desta história, eu não consigo deixar de pensar na sabedoria inata das atitudes deste cachorro.

O Bingo tinha duas opções: sinalizar a morte para as perdizes ou seguir a vida das borboletas. Mesmo diante de um homem armado, ele optou pela vida. Colocou a sua própria existência em risco para ter o prazer de uma corrida com as borboletas, no meio de um campo, em um dia de cálido sol. Deixou de seguir o instinto e o treinamento por um momento de pura espontaneidade.

Entre o trabalho e a diversão, o Bingo decidiu se divertir. Outras perdizes virão, mas borboletas, estes seres coloridos que adejam sobre as flores, são imperdíveis. São únicas. Aquele momento mágico nunca mais iria se repetir e o perdigueiro aproveitou-o ao máximo. Vale a pena lembrar de que existem coisas mais importantes do que os deveres. Não podemos esquecer das borboletas. Elas estão sempre por aí, desafiando a gravidade com seu voo trôpego, passando despercebidas no nosso cotidiano repleto de concreto, de obrigações, de pequenas indiferenças.

Bingo viu as borboletas; provavelmente os caçadores nem as notaram, mais preocupados com as perdizes. O olhar de Bingo e a magia que somente ele viu naquele passar das borboletas o fez levar um tiro da realidade. Cruel, muito cruel… no entanto, a julgar pela alegria com que recebia os visitantes, ele não estava arrependido da decisão que tomou, não estava arrependido de ter levado um tiro, de ser humilhado e escarnecido entre os cachorros da própria raça como “o cão bobo que não caça”. Na verdade, ele devia ser reconhecido como “o cão extraordinário que sonhou em ser uma borboleta” e, no curto espaço da sua corrida sobre o sol, ele realmente conseguiu ser uma.

A lição mais importante transmitida pela história do Bingo é que devemos lembrar das borboletas. Elas estão sempre por aí. E, mesmo correndo o risco de levar um tiro, ainda vale a pena sonhar, ainda vale a pena correr e se divertir no meio do campo. Os deveres são implacáveis e nos chamam, mas as borboletas não podem ser desprezadas.  Afinal, elas são únicas, e um momento de voo sempre vale por uma vida de arrastos.

O Bingo brincando com a minha avó. Ou brigando. O olhar de adoração é o que mais lembro dele, depois da história das borboletas. E a alegria que ficava quando alguém brincava com ele.

Eu e o Bingo, com ele se espremendo todo para tentar me alcançar.

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