Os girassóis mutantes de Van Gogh

Os girassóis de Van Gogh

No mês passado, pesquisadores da Universidade da Georgia, dos Estados Unidos, descobriram que alguns dos quadros da série “Girassóis”, desenhada por Van Gogh, ostentam uma variedade mutante desta planta, conhecida como girassol duplamente florido. Nos quadros em que ela aparece, estaria espalhada em meio ao tipo normal de girassol, ainda que os cientistas digam que a mutação era rara e, por isso mesmo, extremamente valiosa.

À esquerda, o girassol normal; à direita, a mutação.

Não tenho como saber, mas duvido muito que Van Gogh tenha pintado a variedade mutante de girassol de forma intencional. Ele deve ter pintado imaginando a riqueza das cores, o contraste das formas do girassol, a aparência redonda, pesada, concentrada da mutação, tão diferente da estrutura sorridente do girassol habitual.

Nunca tive a oportunidade de ver uma obra de Van Gogh ao vivo, sentir a fúria das pinceladas, a força com que a arte foi colocada no papel. No entanto, toda vez que enxergo uma reprodução, não interessa a forma em que esteja, consigo sentir a urgência, a raiva da criação, a necessidade de colocar o monstro para fora. Nos tempos atuais, tenho a chance de ver plantações de girassóis em Teutônia e é uma experiência singular saber que Van Gogh observava as mesmas plantas duzentos anos atrás. Quando passo por estas plantações pela manhã, os girassóis parecem estar desnorteados, acordando do sono noturno e procurando com avidez o sol tão essencial para as suas vidas; quando retorno, à noite, estes mesmos girassóis estão prostrados, as cabeças voltadas para o chão, exauridos. Não posso deixar de pensar que o sol nasce por causa deles, para não frustrar seus seguidores, e uma parte de mim insiste em dizer – por mais ilógico que seja – que os girassóis pensam que o sol só levanta e se desloca no firmamento guiados pelos seus olhos. Eles devem pensar que, se desviarem o olhar por um segundo que seja, o sol cairá e consumirá o mundo em chamas. É possível sentir o receio dos girassóis, aquela sensação que Atlas tinha de carregar o mundo e a existência de tudo nas costas.

Saber que Van Gogh utilizou uma mutação de girassol nos seus quadros me fez pensar no seu olhar. O que diferencia uma pessoa de um artista é a maneira com que este consegue olhar o mundo e transcrevê-lo de forma mais real do que a própria realidade. Dezenas de pessoas passam pelos mesmos girassóis que eu, indo para o trabalho ou imersos nas suas vidas cotidianas. Mas somente um Van Gogh pode olhar a plantação e ver os girassóis como arremedos imperfeitos do sol, como plantas seguindo um astro solar com veneração quase canina, como estruturas desajeitadas que, inconscientes do seu peso, insistem em desafiar a gravidade para se embeberem da vida trazida por raios distantes de uma estrela.

Em uma sequência do filme “Sonhos”, de Akira Kurosawa, o alter-ego do diretor está diante de um quadro de Van Gogh e, subitamente, entra na pintura e começa a viajar entre as paisagens de sucessivos quadros, até encontrar o próprio pintor. Esta cena ainda é a mais perfeita representação da experiência artística que encontrei: o espectador entrando na obra, mergulhando de corpo e alma nela até encontrar o próprio artista e comungar da sua visão de mundo. Também gosto muito de imaginar que cada artista está dentro da própria obra, morando nela para quem quiser conhecê-lo, sendo este o próprio conceito de imortalidade tão buscado por alguns. No diálogo com o personagem, Van Gogh fala: “Uma cena que parece pintura não dá pintura. Se olhar com atenção você verá que toda natureza tem sua beleza. Quando encontro esta beleza natural, eu simplesmente me perco nela. Então, como num sonho, a cena se pinta sozinha. Eu consumo esta cena natural, eu a devoro completamente. Quando termino, a imagem aparece completa diante de mim. Mas é difícil segurá-la aqui dentro”.

A sensação de se perder na beleza, ser consumido por ela e, depois, colocar tudo para fora é o que todos deveriam buscar. No filme de Kurosawa, a experiência artística de Van Gogh é tão forte e completa que ele chega a arrancar a própria orelha por que ela estaria destoando da beleza buscada na obra de arte. Não é tão inacreditável quanto parece (até penso que seria algo bem possível).

Destaque também para a opinião das lavadeiras assim que o personagem entra no quadro: “cuidado com Van Gogh, ele esteve no manicômio”. A intensidade da experiência artística faz com que a pessoa pareça louca diante dos olhos normais. Mas, neste caso, loucura é simplesmente aquilo que está fora do habitual, aquilo que escapa desta aterradora curva de normalidade da qual o ser humano está sentenciado por si mesmo e pela sociedade a pertencer.

No final das contas, os homens não passam de girassóis em uma plantação, todos olhando para o sol, todos seguindo a multidão. Mas sempre existem as variações, as mutações, os diferentes, para revelar a verdadeira faceta da realidade, aquela que está diante dos olhos e poucos conseguem ver.

Não poderia encerrar esta postagem no blog sem colocar o próprio vídeo do Akira Kurosawa:

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2 Comentários

Arquivado em Akira Kurosawa, Cinema, girassóis, Pintura, Van Gogh

2 Respostas para “Os girassóis mutantes de Van Gogh

  1. Kelli Pedroso

    O Vicent Van Gogh é o meu pintor favorito. Eu ainda não conheço Amsterdã, mas sei que vou aproveitar muito a viagem. A visita ao museu será extremamente prazerosa. Mal posso esperar para contemplar suas obras. O teu texto me proporcionou uma viagem incrível. Obrigada!

    • Que bom que gostaste, Kelli. O Van Gogh é um pintor maravilhoso, dá para ver a vida escoando pelas pinceladas dele, tão dotadas de fúria e certeza que chegamos a considerar loucura. Eu acredito que as obras de Van Gogh passem boa parte da sua emoção por meio da reprodução gráfica (fotografias), é um dos poucos pintores que acredito que não precisamos ver o original para nos sentir impactados. No entanto, quem já viu alguma obra dele ao vivo, falou que a experiência é ainda mais poderosa, paece um misto de soco na boca do estômago com uma explosão de sentidos. Também tenho esta curiosidade. Um abraço, e obrigado pelo comentário

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